PARAPSICOLOGIA E A ALTERAÇÃO DO SEU PARADIGMA. UMA ANÁLISE CRÍTICA (*)
O convívio e discussões com médicos, incluído dentre eles o meu genro, clínico e anestesista, tem-me proporcionado informações e facilitado algum acesso a revistas médicas e da ampla literatura dos efeitos terapêuticos e reações colaterais dos diversos fármacos desenvolvidos desde os anos sessenta. Um de meus filhos é farmacêutico, com especialização em industrialização de fármacos.
A minha posição continua a ser de um leigo em medicina e farmacologia. Além disso, os que me acompanham no I.P.P.P (Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas) sabem da minha familiaridade com pessoa que era esquizofrênica e, por essa razão, as muitas visitas que realizamos em locais de práticas denominadas espíritas (centros cardecistas, umbanda, candomblé, quimbanda etc.), na expectativa frustrada de resolver, por outro meio, também, e que me despertou o interesse pela parapsicologia.
Desde 1983 temos a nossa atenção voltada para patologias tais como autismo, fobias, dor, síndromes de pânico, de Parkinson e distúrbios decorrentes de ansiedade, falta de afetividade, fortes emoções, anemias etc. A partir dos anos sessenta acompanhamos o surgimento de neurolépticos e fármacos específicos, que funcionam a nível cerebral, requerendo uma atenção aos avanços dos neurotransmissores como base de um estudo sistemático.
Como engenheiro eletricista, com cursos de especialização nesta área e pós-graduação em engenharia econômica, com prática profissional e, como professor, dedicando-me à metodologia científica, teoria do conhecimento e análise estatística, como um dos professores do curso de pós-graduação do IPPP, pode-se muito bem avaliar-se a respeito de nossa dificuldade de aceitar, sem refutação as proposições discursivas concernentes aos fenômenos psíquicos, que tratam de um “outro” cérebro, que em análise científica se chama descrição anedótica.
Em razão disso, da necessidade de uma base biológica para tornar o discurso mais explicativo, perguntamo-nos se não teremos, os estudiosos dos fenômenos psíquicos efetuar uma alteração do paradigma da parapsicologia, locando o cérebro com o seu complexo sistema nervoso, o centro dos estudos, substituindo o constructo que atualmente nos orienta, por um embasamento neurológico que não negará a função Psi, mas emprestará mais consistência e manterá uma coerência necessária a uma explicação adequada aos fatos pertinentes dos fenômenos parapsicológicos.
Esta análise aponta algumas questões muito polêmicas, o que promoverá debates, que na visão e compreensão do autor, provocará a necessidade de reformulação do modelo científico atual da parapsicologia, como ciência.
De acordo com Thomas Kuhn (1962) as hipóteses, leis,
teorias, instrumentações e aplicações de uma ciência fazem parte
abrangentes da ciência em geral. A ciência normalmente progride, segundo
Kuhn, através do trabalho que se desenvolve dentro da conceitualização de
um paradigma, mediante a resolução de problemas, ou questões, irresolvidos,
os quais são propostos pelo próprio paradigma. Quando são descobertas
anomalias que não podem ser resolvidas dentro do paradigma, advém uma
crise e ocorre uma revolução na ciência.
Não iremos, nesta ocasião, tratar das discussões havidas
nos anos sessenta que culminaram com o trabalho publicado por Lakatos
(1970) que acompanha o pensamento de Popper (1935) ao defender a
importância da refutabilidade nas teorias científicas. Kuhn provocou uma
série de posições discordantes dos filósofos tradicionais da ciência, que
tendem a confiar na análise racional da ciência em seu procedimento.
Lakatos, em resumo, fez uma coerente crítica à “retirada gradual dos
filósofos da ciência”. Havia dois pontos de vista em conflito: primeiro o
de que as teorias científicas poderiam ser rigorosamente confirmadas;
segundo, tornou-se discutível se as teorias poderiam ser ou não
refutáveis. O próprio Kuhn provocou a indagação se seria, na realidade,
preferível a primeira ou a segunda posição. Parece estar claro aos seus
críticos, que Kuhn provocou a indagação se seria, na realidade, preferível
a primeira ou a segunda posição. Parece estar claro aos seus críticos, que
Kuhn não tenha ficado satisfeito com o resultado de suas próprias
investigações, pois na edição revista de 1970 de seu original, mostrou
compreensão às críticas e tentou redefinir a palavra “paradigma”. Todavia,
tudo leva a crer que não conseguiu o seu intento. No conceito e uso dos
estudiosos, a palavra paradigma, da edição original, no seu cunho mais
geral e global é o que predomina, porém sem a mesma força dos argumentos
de seu trabalho original de 1952.
Melhor do que paradigma seria usar a expressão “modelo
científico teorético”.
Considera-se que o paradigma atual da parapsicologia se encontra sob variadas descrições pouco coerentes sob a designação genérica de hipótese psi. O objeto central de investigação dentro desse paradigma é a psiquê na qual alguns ramos de seus estudos se destacam mais ou menos, de contextos psico-sociais, quer inter-sujeitos, quer inter-grupos.
Há um grupo ou corrente de estudiosos, no qual se incluem
os psicólogos, que classificam a parapsicologia como um ramo da
psicologia, que estuda os fenômenos anômalos, isto é, aqueles que não
cabem no âmbito das modalidades sensoriais conhecidas. Os chamados
fenômenos Psi compreendem a receptividade de eventos exteriores à mente de
uma pessoa, os quais não são mediados por qualquer modalidade sensorial.
O outro grupo, ou corrente, pretende analisar os diversos
fenômenos do âmbito da parapsicologia, com identificação própria, como uma
função Psi, cuja análise metodológica não se confunde com a da psicologia.
Para esse grupo, o fenômeno paranormal não altera o comportamento do
indivíduo, em definitivo, mas tão somente sob o efeito imediato,
transitório, da ocorrência do fenômeno.
Infelizmente, a maioria dos nossos conhecimentos sobre os
fenômenos parapsicológicos é mais descritiva do que explicativa e,
tampouco, nem mesmo está claro se se trata de um ou de vários processos.
No paradigma atual da parapsicologia, não conhecemos nenhuma explicação envolvendo qualquer processo neuronal do sistema nervoso central (SNC).
O cérebro do atual paradigma ou não se encontra presente,
ou é um constructo com propriedades mitológicas. E faz-se um discurso
variado, “ad-hoc”, na base da formação ideológica (filosófica, ou
religiosa), ou mesmo profissional.
Perguntamo-nos como “explicar” a ação da mente sobre
objetos se ainda mal dependemos de um discurso ajustado na análise da
telepatia.
Sem nos determos, então, em maiores detalhes, em James
Watson encontra-se o mérito da introdução do novo conceito em que a
psicologia se limitaria, como ciência, ao estudo de estímulos e respostas
de maneira controlada e mensurável. Estímulos S (de stimulus) e respostas
R (de response) seriam consideradas categorias passíveis de observação
pública. Essa condição é uma exigência derivada da perspectiva positivista
para uma conduta como objetivo de investigação e possibilidade de pesquisa
científica. Desse compromisso, resultaram duas linhas teóricas, no que
concerne à caracterização da psicologia:
-
a linha S-R, estímulo-resposta;
-
a linha mediacional S-O-R, estímulo-organismo-resposta.
A primeira, segundo Donald O. Hebb, inspirou-se numa
teoria neurológica inadequada e já totalmente superada ao tempo de Watson
(era o que se tinha do conhecimento neurológico em 1913).
Já em 1970, Jacques Cosnier, professor da Universidade de
Lyon, França, em “Clefs pour la psychologie” (1)
oferece diversos assuntos relativos aos avanços
obtidos na psicologia e propõe uma nova conceituação: A psicologia seria a
ciência dos processos intercomunicativos cujas raízes estariam na biologia
e na lingüística. A fase comportamentista (relativa ao discurso da teoria
do comportamento) estaria ultrapassada, pois não teria possibilitado a
superação do vazio que se estabeleceu entre a teoria e a praxis,
hiato que ainda permanece como desafio.
Todavia, acompanhamos que nas várias críticas das diversas
correntes psicológicas, a participação ampla do trabalho de especialistas
da modificação do comportamento para fins de ajuste, adaptação,
tranqüilização etc., psicólogos clínicos e comportamentalistas oferecem,
sem dúvida, uma realização muito fecunda.
Do ponto de vista de uma reflexão ontológica, a
anormalidade significa um desvio (ou afastamento) de um padrão ideal, ou
de perfeição imaginado ou desejado pelo homem, angustiado diante de suas
aflições das quais percebe através de suas limitações.
Nesse sentido, qualquer progresso científico pretenderá
identificar a natureza da existência desse padrão ideal imaginado em
termos relativos, contingentes e de progresso científico tecnológico com a
aproximação do comportamento e organismo, através de outras ciências:
bioquímica, neurofisiologia, comunicação, linguagem etc.
A abordagem poderá conter as diferenças metodológicas, mas
no embasamento nas funções neuro-encefálicas devem ser buscadas as
explicações cujas importâncias e eficácia sejam marcantes no sentido de
produzir resultados verificáveis e controlados.
Para Hebb a fisiologia trata do funcionamento das
diferentes partes do corpo com os segmentos de comportamento que essas
partes apresentam. Skinner considera (fórmula S-R) que as informações dos
estímulos e respostas são suficientes para alcançar os objetivos
referidos. Com Teitelbaum (1967), em “Psicologia Fisiológica”,
considera-se que, mesmo a previsão com base em dados fisiológicos, falhou.
Teitelbaum acompanha o pensamento de Skinner, porém, naquela época as
funções sobre neurofisiologia, quanto aos conhecimentos acerca dos
neurotransmissores ainda não haviam atingido os níveis das décadas de 70 e
90. E ao que saibamos, não houve um retorno a uma abordagem mais
atualizada. Na parapsicologia, não percebemos nenhum estudo no sentido de
aproveitar os avanços neurofisiológicos.
Teremos de repetir Hebb quando colocou as diferenças entre
psicologia e psicofisiologia, admitindo autônomas ambas as ciências, que
tenham seus embasamentos na neurofisiologia. No caso da parapsicologia a
autonomia, como ciência, não é perdida ainda que utilizando a neurologia,
a psicofisiologia, a fisiologia, a própria psicologia e outras ciências,
isoladamente ou em conjunto, em as utilizando para uma consistente
explicação derivada dos fenômenos delimitados e abrangidos pelos métodos
parapsicológicos.
A finalidade geral da ciência consiste em propor uma
explicação objetiva, factual e empírica do mundo. A ciência tem um objeto
de estudo que se diferencia da mera curiosidade generalizada. Há
necessidade de atender-se um mínimo exigível na tentativa de formular
proposições (teorias e hipóteses) científicas. O método científico gera a
diferença da explicação próxima da realidade e aquela descrição do mundo
conforme se obtém de resultados da reflexão filosófica, da fé religiosa e
das criações artísticas.
Um instrumento (sua criação ou melhoramento do seu
desempenho) é capaz de proceder uma revisão de hipóteses científicas; por
exemplo o microscópio, o tomógrafo etc. O instrumento é uma expressão de
uma teoria científica.
Na história, em legendas míticas e religiosas dois erros
básicos ocorrem, do ponto de vista científico, segundo Marx e Hillix
(1973):
(1) atribuir-se a explicação a causas não-observáveis;
(2) considerar os eventos utilizados como explicação,
quando não se ajustam no mesmo contexto natural dos eventos a serem
explicados.
Muitos leigos apreciam brindar o cientista indagando
ingenuamente: observa-se uma partícula atômica? Ou o genes? Ou as
vesículas do botão sináptico, que produz o neurotransmissor? A questão
seria melhor formulada, primeiro interrogando qual a técnica que permite
detectar, se através de instrumento (observação direta), ou através de
procedimentos que interagem no processo (observação indireta).
Homero descrevia suas vitórias nas guerras em termos de
favoritismo de que gozava dos deuses gregos. A mitologia descrevia as
tempestades como o enfurecimento dos deuses entre si.
Por cerca de 2.300 anos fora admitido que o sangue saía e
retornava ao coração, isto é, fluía e refluía, sempre pelos mesmos vasos.
Essa maneira de descrever sofreu um forte abalo quando o médico inglês
William Harvey (1578-1657) concluiu, experimentalmente, que o sangue
circulava. O coração bombeia o sangue para as artérias distribuindo-o até
os tecidos do corpo e, através das veias, trazem-no de volta ao coração.
No percurso desenvolvem-se uma série de funções que antes dessa
descoberta, ou eram ignoradas ou adquiriram explicações que não se
ajustavam no mesmo contexto.
Defendemos que o cérebro e suas funções neurofisiológicas,
bioquímicas etc., passam a ser, no caso do estudo da parapsicologia, o
principal embasamento explicativo, evitando descrições de indeterminadas
hipóteses em um constructo que escapa à coerência.
Perguntamo-nos como explicar a ação da mente sobre
objetos, se ainda mal dependemos de uma interpretação consistente para
análise do processo telepático?
Os modelos que representamos do mundo são resultados do
nosso aparato de percepção.
Em verdade, não está claro porque a ciência requer que as
observações realizadas por um observador resultem em observáveis, também,
para outros observadores que empreguem os mesmos métodos. Não está claro
em absoluto, que diferentes observadores comparem suas observações de
fenômenos idênticos e cheguem às mesmas conclusões. Há um ponto crucial
que se encontra na história, ou na cultura, de cada observador. As
variadas, ou diversificadas, maneiras apreendidas pelos diversos
observadores trazem-lhes uma variedade no que se refere à observação, às
interpretações e às idéias que são formuladas sobre o mesmo fato
observado.
Por isso, reafirmamos que o fato é e se esgota por si. Mas a interpretação desse fato somente é plena, se vários observadores usam o melhor aparato (seus órgãos senso-receptivos) somático-mental e seus instrumentos o habilitam a esgotar a interpretação do fenômeno. Então, diz-se necessário complementar que o observador deve ser treinado. Devido a isso, somos mais propensos a acreditar no instrumento do que nos nossos próprios órgãos sensores.
Darwin fez sua viagem pela América do Sul em um bergantim,
de nome Beagle. Estava nas costas da Patagônia, onde ao largo, o barco
ancorou e uma patrulha foi mandada, em exploração, à terra firme, em
barcos pequenos, botes de remo. O interessante, que foi registrado, é que
os nativos vigilantes conseguiram “ver” da costa, os pequenos botes
aproximarem-se, porém não “enxergaram” o Beagle. De fato, conheciam
pequenos botes e esses se ajustavam ao seu modelo de deslocamento de
pessoas no mar. O bergantim não se adequava a nenhum modelo do seu mundo
conhecido.
Isso nos mostra que devemos ser ensinados (treinados) a
ver e “ENXERGAR” o que nos é oferecido a ser observado. Além disso,
deveremos retirar de cada fato o máximo de informação com que esse
fato se nos apresenta, bem como aos nossos instrumentos.
Se estamos diante de fatos psicofisiológicos, nosso
embasamento não poderá ser somente psíquico, mas também biológico, físico,
neurofisiológico. O cérebro, ou melhor, o sistema nervoso central (SNC),
deverá estar presente no estudo parapsicológico, se se atribui o fato no
âmbito da Parapsicologia.
Tradicionalmente aceitamos possuir cinco sentidos,
conquanto já se podem arrolar mais de vinte sentidos conhecidos e,
provavelmente, existem outros. Os principais detectores dos órgãos
receptores podem ser classificados em quatro grupos:
1. Teleceptores: receptores sensíveis aos fenômenos
exteriores distais; por exemplo: olhos, ouvidos e narinas;
2. Exteroceptores: receptores sensíveis aos fenômenos
exteriores proximais, encontrados na pele, tais como tato, calor, frio,
pressão, dor;
3. Interoceptores: receptores de fenômenos interiores,
que se encontram nas papilas gustativas (isto é, nos botões ou corpúsculos
gustativos) sensíveis aos diversos sabores e os que se realizam nos órgãos
internos ou viscerais;
4. Proprioceptivos: receptores que informam a posição do
corpo a qualquer momento, que se encontram no labirinto, tendões, músculos
e articulações.
Num mamífero complexo como o homem as funções de captação
da variação verificada no ambiente, chamada de recepção; as de propagação
do efeito dessa variação a todo o organismo, chamada de condução e as de
produção da resposta, chamada de efetuação, são desempenhadas pelo
neurônio.
Os neurônios mantêm constante comunicação entre si através
das sinapses. A sinapse, em resumo, é a região onde ocorre o processo de
transmissão do impulso nervoso, de um neurônio para outro, através de uma
fissura, ou de micrométrico espaço sináptico, onde termina o axônio, por
meio do botão pré-sináptico. Além dos pulsos elétricos, gerados pela
despolarização (variação de um gradiente elétrico, devido às concentrações
iônicas) a transmissão se dá por processo químico (variação de um
gradiente de concentração química). O processo químico se dá com a
liberação de neurotransmissores formados nas vesículas dos botões
sinápticos. Há cerca de vinte e cinco anos somente era conhecida a
acetilcolina. Depois foram reconhecidas a noradrenalina, a serotonina, a
dopamina e outras. Foram notáveis os achados tais como as encefalinas
(descoberta em 1975, como a primeira substância analgésica natural do
cérebro). Atualmente já se tem mais de mil neurotransmissores com função
explicada.
O assunto é complexo e intrigante, porém desafiador. Os
bioquímicos, que perseguem o processo e os psiquiatras não querem, ou
evitam, passadas maiores do que o constatado em laboratórios. Mas nós os
leigos, podemos acompanhar os seus progressos e “invadir” as suas áreas
sugerindo maiores desafios e questionamentos. Já são milhares de
neurotransmissores, os agentes químicos (inibidores e excitatórios) que
transportam no cérebro os sinais elétricos e químicos de comunicações
entre os neurônios, dando origem ás emoções, à fala e ao pensamento.
Vamos pinçar alguns casos citados na literatura médica.
Quem toma novalgina para tratar uma dor de cabeça (simples cefaléia), geralmente não consulta o médico, nem decodifica o texto de uma bula, se já o fez uma primeira vez. Baseia-se no escolher, na farmácia, sem receita médica, o comprimido que já lhe foi “eficiente” em outras ocasiões.
No Brasil, mais de 20 milhões de
unidades de novalgina foram comercializadas em 1997. Esse medicamento
oferece grave risco, no entanto. A novalgina pode levar a uma diminuição
da quantidade de glóbulos brancos, células de defesa do organismo e
deixá-lo vulnerável ao ataque de virus e bactérias. (2)
(2) Centro de Controles e registro de notificações do Centro de Controle e de Intoxicação, CCI, do Hospital Jabaquara, São Paulo; Centro de Assistência Toxicológica, CEATOX, do Instituto da Criança, São Paulo
José Ruben de Alcântara Bonfim,
atual presidente da Sociedade Brasileira de Vigilância de Medicamentos
(SBVM) afirma que a palavra fármaco (de origem grega Pharmacon) que
significa princípio ativo, “não só que cura, mas expressa também o que
pode trazer malefícios”. A interação de mensageiros ou do fármaco com o
receptor (receptores são grandes moléculas protéicas que reconhecem um
neurotransmissor específico).
A dipirona é o princípio ativo da
novalgina. A neosaldina contém o mesmo princípio ativo e, no entanto, há
uma atuação e uma resposta orgânica idêntica, quanto ao potencial de
redução imunológico. O que determina essa resposta é a sensibilidade
individual, que é um fator a ser considerado.
O buscopan (dipirona mais
hioscina) produz dentre outros efeitos colaterais a parada cardíaca,
alucinações e sonolência. (3)
(3)A hioscina (também chamada escopolamina) é um alcalóide
no seu estado bruto, e produz depressão central. Os alcalóides são
compostos orgânicos nitrogenados que se comportam como álcalis e formam
sais.
O voltaren e o cataflan (cujo
princípio ativo de ambos é o diclofenaco) são antiinflamatórios, indicados
às pessoas hipersensíveis à aspirina (que também produz efeitos
colaterais). Pois, dentre outros efeitos colaterais, provocam distúrbios
auditivos, vertigem e confusão mental, por inibir ou excitar demais a
atividade cerebral.
O salicilato de sódio já era
utilizado no século XIX, no tratamento do reumatismo agudo. Em 1899 foi
introduzido por Dreser a aspirina (o ácido acetil salicílico
— AAS), que
passou a ser amplamente utilizado nas diversas manifestações dolorosas
(ação analgésica) tais como na cefaléia, na dor de dente, na artrite
reumatóide, para diminuir a temperatura do corpo (ação antiinflamatória e
antipirética. A aspirina, no entanto, apresenta efeitos colaterais , em
diminuindo a taxa sangüínea de protrombina, por exemplo, sangramento
gástrico e dificuldade de coagulação sangüínea. Interage com o vírus da
gripe influenza e acaba provocando uma hepatite fatal. Só mais
recentemente, 1970, seu mecanismo de ação foi explicado.
NEUROTRANSMISSÃO
Há uma
estimação, generalizada, de que só o cérebro humano contém cerca de cem
bilhões de neurônios, ou células nervosas. Todas essas células
comunicam-se entre si. Um neurônio recebe informação de outros e emite
sinais a tantas outras células nervosas. Trata-se de um sistema muito
complexo processador de informações, necessitando para o seu pleno
funcionamento de um abundante suprimento de oxigênio e glicose
transportados através da circulação sangüinea. Os metabólitos que resultam
das funções neuronais se escoam via circulação sangüínea, pelo que é
possível analisar-se a variação da composição e também a quantificação.
Cerca de 20% da corrente
sangüínea é levada ao cérebro que pesa apenas 2% do peso do corpo humano.
O cérebro é um órgão de elevado nível de eficiência, pois apenas consome,
em energia, o equivalente a uma pequena lâmpada de 20 watt para o seu
funcionamento.
No corpo celular se encontra o núcleo contendo o material
genético, o retículo endoplasmático rugoso, sintetizador de proteínas, o
aparelho de Golgi, formador da vesículas secretoras e mitocôndrias que
fornecem energia para as reações química que aí são processadas. Do corpo
celular se estendem prolongamentos designado dendritos e um prolongamento
longo denominado axônio. Essa é uma versão simplificada. Cada célula está
interconectada com outras através de botões terminais, nos terminais dos
axônios, denominados botões pré-sinápticos.
Um neurônio típico contém milhares de conexões sinápticas
que se situam sobre os dendritos e o corpo celular. Em menor número
existem botões pré-sinápticos que se encontram no corpo do axônio e sobre
os terminais nervosos de outros neurônios.
A membrana celular é constituída de uma dupla camada de
fosfolípedos (gorduras fosfatadas) no meio da qual “flutuam” moléculas de
proteínas que formam, com os canais iônicos, receptores que reconhecem
especificamente as substâncias neurotransmissoras e enzimas que alteram de
maneira seletiva a velocidade das reações químicas no interior e no
exterior da célula e de transportadores que mobilizam nutrientes,
substâncias sintetizadas no neurônio e neurotransmissores. A membrana
celular através dos poros deixa passar átomos eletricamente carregados ou
íons de sódio, cloro, potássio ou cálcio, para o interior ou exterior da
célula. Existem proteínas nas quais uma parte da molécula é um receptor,
enquanto a outra parte desempenha a função de um canal iônico. Outras se
dividem em receptores e enzimas. Há ainda aquelas denominadas estruturais
que desempenham apenas a função de sustentação. Cremos que essa reduzida
descrição, já oferece uma visão da complexidade do sistema nervoso e a
razão de muita gente boa na parapsicologia escapar-se ao seu estudo.
Há pouco mais de vinte e cinco anos, apenas a acetilcolina
era reconhecida como neurotransmissor. Graças às pesquisas continuadas de
neurobioquimicos, neurofisiologistas, biologistas, uma série crescente de
substâncias têm sido reconhecidas como neurotransmissores ou
neuromoduladores centrais. Os neuromoduladores seriam substâncias que
produzindo efeitos mais prolongados sobre a excitabilidade da membrana
neuronal, parecem modificar a função dos neurotransmissores. Na maioria
dos casos são aminoácidos e seus produtos de descarboxilação (perda de uma
função ácida, pela perda de carboxila da molécula) as chamadas aminas
biogênicas destacando-se os ácidos glutâmicos e aspárticos como
neurotransmissores excitatórios e o ácido gama-aminobutírico e a glicina
como neurotransmissores inibitórios.
Entre as aminas biogênicas destacam-se a noradrenalina, a
dopamina e a serotonina como neurotransmissores invariavelmente
excitatórios. Como a acetilcolina (que não faz parte de nenhuma das
categorias acima) tanto podem despolarizar a membrana pós-sináptica quanto
hiperpolarizá-la dependendo do tipo de receptor com que se combinam e do
neurônio onde se encontra.
A encefalina foi descoberta em 1975, como a primeira substância analgésica natural do cérebro. Com esse achado uma série de pesquisas fundamentais das sensações que despertam prazer se realizam através da ação de uma substância natural, a endorfina, de constituição muito parecida com a morfina.
O neurofisiologistas Luiz Eugênio Araújo de Moraes Mello,
da Universidade Federal de São Paulo, explica que “a liberação excessiva
(no caso da secreção do cortisol) pode levar os neurônios à morte,
limitando até a capacidade intelectual”.
O cortisol é um hormônio que, entre outras funções
interfere na liberação do HGH (o hormônio do crescimento). Uma pesquisa
realizada sob os auspícios de Harvard Medical School pela neurobiologista
Mary Carlson, revelou que a falta de afeto e contato físico (toque das
mãos, abraço afetuoso, o passar a mão, o carinho) é capaz de desequilibrar
os níveis de cortisol. Os desequilíbrios na secreção de cortisol se notam
na alteração das taxas de crescimento, degeneração cerebral e perda de
memória. Cita-se que sessenta crianças romenas de até três anos de idade
que viviam em orfanato e creches, onde se alimentavam adequadamente e
contavam com agasalho e abrigo, mas não gozavam de toque afetuoso e
carinho, apresentavam alterações nos níveis de cortisol. As medições foram
feitas através de amostras de saliva das crianças, comparativamente aos de
crianças normais.
Como um abraço, um toque, um afago carinhoso podem
estimular um sistema tão complexo quanto o hormonal?
A pele é a porta de entrada para várias sensações do
organismo. É
uma rede rica de terminações nervosas conectadas
diretamente ao sistema nervoso central (SNC) do qual faz parte e é o
responsável por tudo que ocorre no organismo; todo estímulo repercute no
cérebro que oferece uma resposta. O abraço é uma emoção positiva.
Os neurofisiologistas e os neurobiologistas (e os
biologistas) interpretam menos discursivamente. O córtex apreende, como
uma via de mão dupla e a informação que o atinge e faz passar para o
hipotálamo e logo faz alcançar a hipófise que estimula as glândulas
supra-renais que liberam o cortisol. Quando o cortisol é liberado, volta
para a hipófise e retorna ao hipotálamo, estimulando a produção do HGH,
hormônio responsável pelo crescimento.
A síndrome de Korsakoff é um distúrbio de natureza
psicótica, que resulta da deficiência crônica de vitamina B. O paciente
sofre uma inflamação de grupos de nervos periféricos e se mostra, em
geral, confuso e amnésico em relação a acontecimentos recentes. Uma
característica marcante é a tendência do paciente “confabular”, isto é,
preencher as falhas de memória por meio da improvisação de histórias
puramente imaginárias, nada mais do que alucinações, a fim de compensar a
confusão mental provocada pela perda de memória.
Tem sido motivo de estudos as alterações orgânicas de
reações rápidas de natureza imunológica em pacientes cuja fé foi
despertada. A fé foi traduzida em qualquer entidade considerada
transcendente, geralmente religiosa. Essa fé age positivamente e ativa as
reações cerebrais no sistema imunológico, desenvolvendo a cura através de
um aumento da resistência orgânica.
Doenças de natureza afetiva como a depressão clínica, a
psicose maníaco-depressiva e a síndrome do pânico estão sendo, eficiente e
em pouco tempo controladas quimicamente por psiquiatras.
A síndrome do pânico conta com médicos psiquiatras (das
Universidades do Rio Grande do Sul
, de São
Paulo e Unicamp) que, ante um diagnóstico correto e rápido, efetuam o
combate através de fármacos que interagem co neurotransmissores.
Da literatura e relatos de neurologistas que cuidam de
pacientes que sofreram uma transitória parada cardíaca e trataram de suas
seqüelas, considera-se que o paciente não morrera. Nem sempre, no momento
crítico da reanimação, a na medição do encefalograma linear ocorre e
define a morte cerebral. O que se tem é um trauma de morte súbita
interrompida. Há um tempo mínimo de parada cardíaca caia privação da
oxigenação não prejudica o neurônio. O assunto é muito complexo.
Os avanços tecnológicos da medicina de reanimação (4)
são capazes de evitar a morte, em muitos casos, de parada cardíaca.
Os pacientes que não rotulam sua experiência num quadro de fé religiosa,
relatam que nada “viram” do “outro lado de lá”.
(4) O Instituto Gallup dos Estados Unidos levanta, de uma
pesquisa recente, que nos últimos 15 anos, cerca de 8 milhões de
americanos passaram pelo trauma de morte súbita interrompida. Os Estados
Unidos detém o sistema de resgate e ressuscitação de pacientes com parada
cardíaca mais avançado de nosso planeta.
A redução da memória provoca, simultaneamente, uma redução
do coeficiente intelectual e intensa confusão mental. O cérebro, porém, se
esforça em “preencher” as lacunas por lapsos, mais ou menos prolongados,
da memória e “limpar” a confusão mental estabelecida. Então, com os
elementos da memória anterior ao fato, o cérebro compõe uma “visão” que
preenche o vazio deixado pela experiência específica, com a imagem que
melhor se adeqüe. Se se trata de uma pessoa mística, imaginará passeios
através de túneis, contatos com entidades, recriando visões de divindade,
santo, familiares, luzes, vozes designando-lhes uma missão religiosa e uma
ordem para “voltar”.
Algumas convulsões (mesmo as que não são de origem
epilépticas) produzem um vazio de memória e confusão mental). As
descompensações de origem diabéticas, além das originadas do choque
anafilático podem provocar lapsos de memória.
A tanatologia é uma reunião de fatos, entre os quais se
incluem a morte e a quase-morte, que têm despertado um interesse especial
de cientistas, cautelosos em formular teorias (e são muitas) para explicar
a morte clínica e o papel da bioquímica cerebral. As várias hipóteses
levantadas, ou formuladas, por esses estudiosos foram reunidos sob um
título muito sugestivo: “Complexo de Lázaro”. Lázaro e o filho de Naim,
são personagens do Novo Evangelho, que descrevem terem sido ressuscitados
por Jesus Cristo. A Igreja Católica e os protestantes, coerentemente não
aceitam descrições, porque Lázaro não conta qualquer lembrança sobre o que
se lhe passou, enquanto morto, ou no processo de sua morte.
O astrônomo de renome Carl Sagan (morto em 1976), cético,
estudioso da tanatologia, elaborou a hipótese de que as experiências de
quase-morte seriam imaginárias, resultantes de lembranças da vivência
intra-uterina, baseando-se em duas analogias: 1) um movimento de saída,
tanto no processo do nascimento como na experiência “extra-corpórea”; 2)
referências a uma situação de um estado vibracional intenso, durante a
parada cardíaca, que remete aos tremores experimentados pelos nascituros
durante as contrações uterinas.
Nas “experiências” descritas pelos que sofreram a
alucinação de estar fora do corpo também se aplicam às explicações de Carl
Sagan.
Tenho anotados os relatos de três pessoas que devido a
acidente de choque elétrico passaram por esses traumas acompanhados de
vazio de memória e confusão mental. Deixamos de descrevê-los para não
alongarmos este trabalho, mas nada nos proíbe interpretar que o cérebro
realiza um trabalho de memória, quando repassa toda a sua vida como na
busca de uma experiência análoga, como se interrogasse
— Isso já me
aconteceu? —
Como me saí “dessa” em experiência anterior?
Nenhum dos três apresentou um relato de natureza mística. Todos passaram pelas experiências de confusão mental, sensação de forte estremecimento e revista de suas vidas como num filme, no qual a película se movimentava para a frente e retroagia buscando fixar-se em acontecimentos comparativos.
Durante as crises de convulsão que levam à súbita
parada cardíaca interrompida ocorre uma hipoxia (falta de oxigenação
dos tecidos do encéfalo). A hipoxia também se verifica em muitos
nascituros, no processo do parto. Daí a necessidade de fazer-se uma
detalhada anamnese com todo paranormal...
Tem-se observado que a mácula, uma região ovalada e
amarela do fundo do olho (retina) não consegue manter um padrão linear de
imagens por causa de intenso sofrimento físico, decorrente de uma completa
desestabilização do padrão de imagens visuais uniformes. Ocorrem
percepções distorcidas de linhas, túneis, escurecimento e branqueamento
com variação luminosa do escuro e do claro. A hipoxia é causa de uma
dinâmica da confusão mental. As células do SNC ficam hiperexcitadas e as
funções sinápticas produzem alterações químicas em regiões como no lobo
temporal direito, responsável pela audição, linguagem e no trânsito de
nervos de percepção visual. A confabulação tenderá a preencher as
confusões mentais e os vazios, reorganizando as funções das regiões
atingidas.
Desejamos deixar claro que as hipóteses parapsicológicas
merecem ser adequadas com a neurofisiologia. Será um meio de enriquecer as
pesquisas e
introduzirá novos desafios através da ampliação do leque
de explicações embasadas em material observável.
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(*)
Trabalho apresentado no XVI Simpósio Pernambucano de Parapsicologia,
Recife, 1998.