DIMENSÕES DA PERSONALIDADE E ESP DURANTE SESSÕES DE GANZFELD
Especial para Anuário Brasileiro de Parapsicologia.
Alejandro Parra & Jorge Villanueva
Resumo. Este informe é uma investigação experimental de duas dimensões da personalidade (extroversão-introversão e neuroticidade) e percepção extra-sensorial mediante a técnica ganzfeld como um instrumento para potencializá-la. Hipotetizamos que os extrovertidos têm maiores acertos assim como também sujeitos com baixa pontuação em neuroticidade. Trinta sujeitos individualmente participaram de uma sessão de 30 minutos de ganzfeld em um aposento especialmente projetado no Instituto de Psicologia Paranormal de Buenos Aires. Cada sujeito preenchia dois questionários antes de cada sessão, o Eysenck Personality Inventory e o Questionário Pré-Ganzfeld. Um de nós (JV) atuou como “emissor” para toda a amostra. Cada sujeito deveria adivinhar uma fotografia-objetivo tomada de um CD que continha 3500 fotos coloridas. Nossos resultados, utilizando a Prova Exata de Fisher, não mostrou significado algum entre neuroticidade e ESP embora tenhamos observado um resultado sugestivamente significativo entre extroversão e ESP (p=.008, em uma extremidade; Phi= .482). Outras variáveis, tais como relaxação, humor, expectativa e motivação tampouco foram significativas. Discutimos se a técnica Ganzfeld interage com a variável extroversão e se algum dos muitos fatores que intervêm na técnica Ganzfeld influem potencializando de alguma maneira a diferença normalmente encontrada entre introvertidos e extrovertidos.
Nossa gratidão a todos os participante voluntários deste experimento. Ademais, a cooperação de Carlos S. Alvarado que nos forneceu a seqüência de números aleatórios e a Juan Carlos Argibay por seu assessoramento estatístico e úteis sugestões metodológicas.
Durante várias décadas os parapsicólogos têm levado a cabo um grande número de experimentos relacionados com técnicas para induzir estados alterados de consciência ou “estados de atenção interna” com o objetivo de obter altas pontuações em percepção extra-sensorial (PES). Alguns investigadores continuam sustentando que esses procedimentos incluindo a hipnose, a indução a estados de relaxação profunda, e o isolamento sensorial (ganzfeld) demonstram a condutividade do fenômeno psi. Segundo Honorton, as investigações de psi mediada por “estados modificados” mostram em geral que os sonhos, a relaxação, e outras condições psicológicas conduzem a uma diminuição da atividade corporal e à percepção de estímulos internos de forma tal que a mente detecta impressões ou débeis sinais de ESP (Honorton, 1977, 1981).
Não obstante a técnica ganzfeld tenha obtido êxito em diferentes laboratórios tem-se obtido resultados, em sua maior parte, de pessoas comuns e participantes voluntários, possuam ou não uma habilidade psíquica excepcional. Pode-se encontrar uma descrição mais detalhada do procedimento ganzfeld em Bem e Honorton 1994; Dalton, 1998; Honorton et al., 1990; e Stanford, 1984.
Se bem que todos esses estudos tenham importantes implicações sobre o resultado da PES, é prematuro afirmar que estes possam ser devidos a um estado modificado e consciência, exceto que os investigadores consigam medir o estado de consciência enquanto os sujeitos estejam sendo submetido a uma indução ganzfeld. É devido a isto que desconhecemos se os bons resultados da PES em experimentos que usam a indução ganzfeld estão ou não em relação com um estado modificado de consciência (ver Alvarado, 1998). E se pudessem comparar os acertos de estudos usando resposta livres com ganzfeld e sem ganzfeld (ou outras técnicas) tampouco poderiam ser valorizados com certeza os acertos em relação a um estado modificado de consciência sem poder medir o grau do estado modificado de consciência, devido a que esses resultados poderiam ainda depender de outras variáveis independentemente do estado modificado, tais como os recentes estudos acerca da relação emocional dos objetivos (Bierman, 1995; Bosga, Gerding, e Wezelman, 1994), as diferenças de sexo entre agente percipiente (Dalton, 1994), variáveis de personalidade (Bierman, 1995; Broughton & Alexander, 1997; van Kampen, Bierman, Wezelman, 1994; Morris, Dalton, Delanoy & Watt, 1995), objetivos estáticos ou dinâmicos (Kanthmani, & Broughton, 1994), a influência do experimentador (Johansson & Parker, 1995, Morris, Dalton, Delanoy & Watt, 1995), a criatividade (Dalton, 1997) e o efeito do agente (Morris, Dalton, Delanoy & Watt, 1995). De maneira análoga, recentes estudos meta-analíticos dos experimentos pressupõem que a visão remota são exitosos, têm tentado provar se aqueles que usam resposta livre com ou sem estados modificados são razão suficiente para indicar que o êxito dos estudos de ESP em ganzfeld se deve ao uso da técnica, ou ao uso da resposta livre a diferença da resposta rigorosa (Milton, 1997).
O psicólogo Hans Eysenck, que estudou a partir de uma perspectiva científica a personalidade (Eysenck, 1978) dizia que os extrovertidos deveriam manifestar bem sua atividade psi porque se aborrecem e respondem mais facilmente a estímulos novos. Poderia ser que a situação experimental favorecesse particularmente aos extrovertidos os quais respondem bem à novidade porém diminuem com a monotonia. Os extrovertidos tendem a responder melhor em grupos do que individualmente enquanto que os introvertidos mostram a tendência oposta. Talvez, em uma situação como a do ganzfeld, os extrovertidos sejam mais sensíveis a qualquer estímulo, incluindo o débil sinal da informação psi. Ao contrário, os introvertidos estariam mais inclinados a entreter-se com seus próprios pensamentos e deste modo mascararem a informação psi a qual resulta em um psi missing . Eysenck também especulava que psi pode ser uma forma primitiva de percepção que precede ao desenvolvimento cortical no curso da evolução, suprimindo a função psi. Posto que os extrovertidos tenham um mais baixo nível de estímulo cortical do que os introvertidos, se espera que os extrovertidos manifestem melhor a sua psi já que os introvertidos teriam demasiado “ruído” em seu interior para poder captar e utilizar o débil sinal de PES. Também é possível que os melhores resultados obtidos pelos extrovertidos se devam a que, em realidade, podem relaxar melhor e sentir-se confortáveis na situação social de um típico experimento psi em laboratório.
Efetivamente, os estudos de personalidade têm demonstrado ser estimulantes áreas de investigação parapsicológica que permitem compreender a atividade psi sobre sujeitos não selecionados. Desde o começo dos anos 50, os testes projetivos, questionários, inventários, escalas de atitudes, e uma variedade de outros instrumentos para medir a personalidade têm sido combinados com testes de PES para explorar diversas áreas da personalidade, principalmente a extroversão-introversão e a neuroticidade. Kanthamani y Rao (1971, 1972a, 1972b, 1973a, 1973b) levaram a cabo estudos para correlacionar determinadas tendências da personalidade e PES. Os estudos de Palmer (1978) e Sargent (1981) demonstraram que o resultados dos experimentos cuja população estava composta por extrovertidos funcionava melhor em seu desempenho PES do que os introvertidos.
De modo que antes de apresentarmos nossas hipóteses, cremos que é adequado descrever as dimensões da personalidades avaliadas neste experimento. As pontuações elevadas de neuroticidade (N) são indicadores de labilidade emocional. Aqueles que obtêm altas pontuações tendem a ser hipersensíveis, com dificuldade para recuperar-se depois de uma situação emocional.. Pontuações altas de extroversão (E) são indicadoras de indivíduos expansivos, impulsivos e desinibidos, que têm numerosos contatos sociais. Em outro pólo, o introvertido é um indivíduo tranqüilo, retraído, introspectivo, reservado e distante, é uma pessoa que controla estreitamente seus sentimentos e concede grande valor aos critérios éticos.
Hipóteses: de acordo com as dimensões da personalidade assinaladas por Eysenck, cremos que haverá uma relação entre extroversão e os acerto dos sujeitos, no seguinte sentido: maior extroversão maiores acertos. Também haverá relação entre a neuroticidade e os acertos no seguinte sentido: menor neuroticidade maiores acertos. Cabe esclarecer que se utilizou a técnica ganzfeld somente como o instrumento que poderia potencializar a PES.
Trinta sujeitos (22 mulheres e 8 homens) participaram em uma sessão de ganzfeld cada um e uma experiência de GESP (telepatia) no curso de três meses. As idades oscilavam entre 14 a 84 anos de idade (média = 37,5; SD = 15,22). A maioria dos participantes eram estudantes de parapsicologia no IPP, estudante de psicologia e participantes de outros eventos de psicologia e parapsicologia os quais também foram convocados em conferências, por correspondência, ou por anúncios em diversos meios. Ademais, preparamos um folheto que oferecia uma explicação breve do procedimento ganzfeld e estimulava a participar da experiência.
Empregamos a forma A da versão espanhola do questionário Eysenck Personality Inventory (EPI) de Eysenck&Eysenck (1978). O EPI é um questionário de respostas fechadas de caráter dicotômico (SIM-NÃO). Mede duas dimensões da personalidade: Neuroticidade (N), Extroversão-introversão (E) e Sinceridade (S). Sujeitos com pontuações altas de N indicam alta labilidade emocional. Sujeitos com alta pontuação de extroversão usualmente são expansivos, impulsivos e desinibidos. O outro pólo é a introversão; são tranqüilos, retraídos, e introspectivos, mostram-se reservados e distantes. Na adaptação espanhola tem-se mudado a direção da dimensão Sinceridade de modo que não aponte a insinceridade. As pontuações altas da neuroticidade são indicadoras de labilidade emocional e hiperatividade, tendem a ser hipersensíveis, com dificuldade para recuperar-se depois de uma situação emocional. A escala de Sinceridade pode ser tomada como uma variável de personalidade (desejabilidade social) ou simplesmente como uma medida de confiabilidade do teste a respeito das variáveis E e N (especialmente N) já que nesta investigação a variante Sinceridade foi tomada unicamente como medida de confiabilidade.
Adaptamos ao espanhol um questionário disenhado por Carl Sargent, originalmente em inglês. O questionário está composto por quatro perguntas (inclui outros dados tais como data, hora, e tipo de teste). Cada sujeito deve indicar seu grau aproximado de relaxação atual (de muito tenso a muito relaxado) seu estado de humor antes da experiência (de mau a excelente), expectativa (de muito baixo a muito alta), e motivação (de muito baixa a muito alta) em uma escala ordinal com valores de 1 a 10. O questionário é útil para medir a sensação subjetivamente experimentada de estado de relaxação, humor atual, e expectativa e motivação ante o êxito de sua experiência. Ademais, estes podem proporcionar informação adicional que será empregada para um estudo correlacional entre tais variáveis e o rendimento da PES.
O Instituto de Psicologia Paranormal construiu seu próprio laboratório Ganzfeld. Consiste de um aposento atapetado, cujas paredes e o leito estão revestidos de placas de papelão prensado, o qual impede que sons interiores ou exteriores perturbem o sujeito durante a sessão.
O aposento está iluminado por uma lâmpada branca que acende antes e depois que a experiência ganzfeld termina. Durante a sessão, duas lâmpadas vermelhas de 80 watts cada uma, cuja intensidade se regula manualmente, banham o sujeito durante a sessão. A estimulação auditiva é proporcionada por um CD especialmente projetado para o experimento. O CD contém cinco minutos com a gravação da voz de um de nós (AP), acompanhado por uma estimulante e suave música de fundo, que induz o sujeito a uma relaxação mental e corporal progressiva. Imediatamente depois da indução, um bufido suave gerado por um dispositivo de ruído branco se estende por 31:40, depois do qual se induz o sujeito a recuperar-se de sua sessão de ganzfeld mediante uma suave música. A duração total da estimulação ganzfeld é de 36:40. O sujeito permanece recostado em uma cadeira reclinável de tecido acolchoado dobrável. Uma leve inclinação a 30° em sua parte superior permite que a cabeça do sujeito fique comodamente inclinada para diante. A sua direita, um equipamento reprodutor de CD conecta o sujeito com o estímulo auditivo mediante um microfone suavemente ajustado às suas orelhas. O volume é médio-alto.
Duas metades de bolas de pingue-pongue ficam firmemente presas em uma máscara de algodão a qual é colocada sobre os olhos do sujeito ligadas ao rosto por uma cinta adesiva transparente. Ademais, um cronômetro controla o tempo de duração do ganzfeld o qual coincide com o contador digital de rotações do CD. Isto permite levar o tempo exato de estimulação auditiva e controlar o momento que a sessão de ganzfeld termina.
Empregamos um leitor de CD de 24X de uma computadora Pentium 100 com tela colorida SVGA. As fotografias-objetivo foram tiradas de um CD ROM Master IMSI que contém um clipart de 3.500 fotografias em cores de alta resolução em formato jpg .O CD contém dez grupos bem diferenciados de objetivos, tais como animais, paisagens e texturas, comidas, caricaturas e desenhos humorísticos, pessoas, plantas, motivos religiosos, cenários, estruturas e transporte. Cada grupo de fotografias, por sua vez, estão subdivididas entre dois a seis subgrupos de fotografias. Por exemplo, o grupo de fotografias "transportes" contém seis grupos de fotografias (por exemplo, automóveis, botes, aviões, barcos, trens e caminhões). Cada subgrupo contém entre 6 a 200 fotografias aproximadamente, as quais estão numeradas de 1 em diante.
Decidimos usar o CD por quatro razões: 1. Os subgrupos de fotografias estavam agrupados de maneira tal que facilitava sua classificação por sua diversidade e variedade de motivos aptos para qualquer experimento de GESP.2. Facilitava o processo de aleatorização.3. A nosso critério, as fotografias-objetivo se caracterizavam por sua diversidade e atrativo visual como para constituir bons objetivos para um experimento de GESP. 4. Impedia que de qualquer forma possível o sujeito pudesse ter algum conhecimento da fotografia-objetivo, e evitando deste modo qualquer manipulação do objetivo, principalmente durante o processo de julgamento.
Designamos para cada grupo de fotografias um número de 1 a 10 (por exemplo, animais= 1, caricaturas= 2, pessoas= 3, etc. O número de subgrupos variava dependendo do grupo (entre dois a oito em alguns casos). O número de fotografias em cada subgrupo também variava (entre 6 a 200 aproximadamente). Em cada subgrupo as fotografias estavam numeradas e a cada número se assinalava o valor que correspondia a uma tábua de números aleatórios. Geramos uma seqüência de números aleatórios (pseudo) mediante o programa estatístico Statpac Gold 4.5.
Para a seleção do grupo e subgrupo empregamos uma “urna”. Essa continha dez bolinhas numeradas que nos permitia determinar ao acaso o número de grupo e subgrupo. Uma vez que selecionávamos o subgrupo, JV determinava primeiro o total de fotografias do subgrupo selecionado e logo, mediante a tábua de números aleatórios, designava uma fotografia-objetivo. O emissor levava um registro do nome do sujeito-percipiente e a seleção do grupo, o subgrupo e a fotografia. Este registro nunca esteve em contato com AP. Quando a sessão de ganzfeld terminava, JV empregava o mesmo procedimento de seleção para criar o set de fotografias para o processo de avaliação. Este procedimento também era desconhecido para AP.
Um último processo de aleatorização era levado a cabo pelo agente uma vez selecionadas as três fotografias para o processo de avaliação. Para evitar a tendência dos sujeitos para selecionar aquelas fotografias posicionadas nos extremos superior ou inferior e direito ou esquerdo da tela, o agente designava ao acaso mediante a “urna” ( de 1 a 4) a posição da fotografia-objetivo. O restante das fotografias era colocado a critério do agente. Este procedimento também era desconhecido para AP.
Período do pré-teste. Este período corresponde ao processo prévio da sessão de ganzfeld. Cada participante visitava o instituto só ou acompanhado em grupos (não mais de dois). AP explicava a cada participante aquilo que se esperava, por exemplo, a sensação prazerosa e relaxante da experiência, a duração da experiência, a natureza das impressões durante a sessão, e o processo de julgamento empregando fotografias. Nunca se informou aos sujeitos detalhes relacionados com a hipótese do experimento ou as característica do teste de personalidade, seja antes ou depois da sessão da ganzfeld.
O sujeito era convidado a permanecer em um aposento (a sala de recepção) do Instituto. Se o sujeito visitava o Instituto só ou em grupo era convidado a preencher ambos os questionários. Uma vez que o sujeito preenchia os questionários era convidado ao laboratório. Durante esta etapa, AP falava amigavelmente com cada participante e esclarecia todas aquelas dúvidas que pudessem ter. Agente e percipiente nunca tiveram contato algum, já que o laboratório se achava a uma distância suficiente como para a eliminar qualquer possível contato entre ambos. O Gráfico 1 mostra a localização do agente e do percipiente, separados por 33ms de distância.
Gráfico 1
LOCALIZAÇÃO DO AGENTE E DO PERCIPIENTE

Período do teste: Corresponde ao procedimento do teste de GESP durante a estimulação ganzfeld. Uma vez que o sujeito permanecia no laboratório, o experimentador solicitava ao emissor (JV) que selecionasse ao acaso uma fotografia. Uma fotografia-objetivo era selecionada para cada sujeito, o qual permanecia na tela do computador durante o período de estimulação ganzfeld. Nunca se imprimiram em papel as fotografias. AP não tinha contato algum com o emissor (JV) durante o processo de seleção nem durante a transmissão da fotografia-objetivo. O experimento foi levado a cabo em duplo cego, de maneira que AP, que tinha contato com o sujeito durante a etapa de pré-teste e pós-teste, não sabia que fotografias-objetivo JV havia selecionado. Aproximadamente quinze minutos depois que o sujeito ingressava no laboratório, AP o indicava a JV mediante um sinal que iniciava o processo de seleção aleatória do objetivo e imediatamente depois começava o momento de observação da fotografia-objetivo em uma tentativa para transmitir o objetivo ao sujeito percipiente durante os últimos vinte minutos da sessão.
Ademais, enquanto o sujeito percipiente permanecia reclinado em uma maca, minutos antes de começar a sessão, cada sujeito era novamente informado das características da sessão ganzfeld. Era-lhe sugerido que recordasse suas impressões, embora, eventualmente, um gravador com microfone externo fosse colocado perto do sujeito para registrar suas percepções em voz alta somente no caso que não estivesse seguro de recordar as impressões evocadas durante o ganzfeld. Todos os sujeitos permaneceram isolados do contato com o experimentador durante o período de estimulação ganzfeld.
Período do pós-teste:
Esta etapa corresponde ao processo de avaliação do objetivo. Ao finalizar a sessão, cada sujeito no laboratório era induzido a verbalizar suas impressões tanto quanto podia. Cinco minutos aproximadamente depois que a sessão ganzfeld finalizava, uma vez fora do laboratório, AP convidava cada sujeito a avaliar suas impressões a respeito das fotografias-objetivo no aposento de onde o agente transmitiu o objetivo. O agente abandonava o aposento e deixava o conjunto de objetivos na tela do computador, para evitar contato com o sujeito percipiente e o experimentador.
Quando o sujeito se situava frente a tela do computador, eram-lhe mostradas as quatro fotografias, então ele avaliava e selecionava aquela que maiores coincidências teria com suas impressões em ordem de maior a menor ou nenhum número de coincidências. Considerava-se como acerto para aquela pessoa que colocava em primeiro lugar a fotografia-objetivo. AP tomava notas destas e outras impressões adicionais em uma planilha, de onde se consignavam tanto a identificação das fotografias-objetivo como os itens que motivavam a escolha da fotografia que o percipiente assinalava (por exemplo, de acordo com a cor, forma, sensação, odor, ou outro motivo). As planilhas eram individuais e assinadas por cada participante. O experimentador não sugeriu comentário adicional algum durante o processo de avaliação, exceto em três casos em que os sujeitos tiveram dificuldade para avaliar suas impressões. O processo de avaliação - dependendo de cada sujeito - durava entre quinze a vinte minutos. Cada sujeito recebeu uma devolução de sua experiência uma vez concluído o ensaio.
RESULTADOS
TABELA 1
|
|
L. N. % |
H. N. % |
TOTAL % |
|
Sim |
5 (38.46) |
4 (33.33) |
9 (36) |
|
Não |
8 (61.54) |
8 (66.67) |
16 (64) |
|
TOTAL |
13 |
12 |
25 |
Test exacto do Fisher
p= .56 (a uma cauda)
Na Tabela 1 são apresentadas as pontuações dos sujeitos segundo os seus valores de neuroticidade. Os 38.46% dos sujeitos com baixa neuroticidade obtiveram acertos comparados com os 33,33% dos sujeitos com alta neuroticidade.
TABELA 2
EXTROVERSÃO E ESP
|
HITS |
INTRO. % |
EXTRO. % |
TOTAL % |
|
Sim |
1 (8.33) |
8 (61.54) |
9 (36) |
|
Não |
11 (91.67) |
5 (38.46) |
16 (64) |
|
TOTAL |
12 |
13 |
25 |
Test exacto de Fisher p= .008 (a uma cauda)
Phi = .482
Na Tabela 2 se apresentam os acertos dos sujeitos segundo seus valores de extroversão. Os 61,54% dos extrovertidos obtiveram acertos, comparados com os 8,33% dos introvertidos.
De uma amostra total de 30 sujeitos, eliminamos 5 que apresentavam valores de Sinceridade menores do que cinco, o qual eram pouco confiáveis os resultados obtidos em N e E. Isto reduz a amostra a 25 sujeitos. Eysenck & Eysenck (1978) assinalam que ainda quando Sinceridade possa ser considerada como uma variável de personalidade, serve também como uma medida de confiabilidade do teste (pontuações baixas de S, invalidam os resultados do questionário). Ambos os autores enfatizam que pontuações menores do que 4 ou 5 assinalam que se produziu essa direção desejável. Em conseqüência haverá de se considerar com cepticismo as pontuações obtidas em extroversão e principalmente em neuroticidade. Neste estudo foram excluídas as pontuações iguais ou menores do que 4.
Usando a análise da prova binominal para avaliar os acertos obtidos pelos 25 sujeitos deste experimento, os resultados globais não foram significativos (p=.15, phi= .628). Para a análise estatística decidimos usar a prova de Chi quadrado para duas amostras. Devido a que encontramos freqüências esperadas menores do que cinco esta prova foi recolocada para a possibilidade exata de Fisher. O nível de significação se fixou em .05. Temos reduzido a dois grupos as variáveis independentes quantitativas, utilizando a Mediana como ponto de divisão, já que pelo reduzido da amostra não podíamos dividi-la em três grupos (por exemplo, alto, médio e baixo). Ademais buscávamos que o tamanho dos grupos fosse o mais semelhante possível. Decidimos usar a Mediana da amostra e não a Mediana da adaptação espanhola porque para a população da cidade de Buenos Aires e Grande Buenos Aires o EPI apresenta valores diferentes daqueles dos espanhóis. Temos submetido a prova as duas hipóteses, cujos resultados se mostram nas tábuas 1 e 2.
Os grupos ficaram conformados da seguinte maneira: Neuroticidade baixa= pontuações iguais ou menores do que 10; Neuroticidade alta= pontuações iguais ou maiores do que 11; Extroversão baixa= pontuações iguais ou menores do que 9; Extroversão alta = pontuações iguais ou menores do que 10.
Na adaptação espanhola do teste que utilizamos estas populações se correspondem com os seguintes classes: Neuroticidade (Homens= 67%; Mulheres= 45%) e extroversão (Homens= 40%; Mulheres= 45%). Esses percentuais são a média dos percentuais correspondentes ao limite superior do grupo baixo e o limite inferior do grupo alto. Ademais, apresentamos os valores da Média e do Desvio Padrão nas escalas de nossa amostragem de 25 sujeitos, Neuroticidade (X= 10,37; SD= 4,29), Extroversão (X= 10,33; SD= 3,65), e Sinceridade (X= 5,75; SD= 1,57).
TABELA 3
RELAXAÇÃO E ESP
|
|
L. R.[3] |
H. R.[4] |
TOTAL |
|
ACIERTO |
F F % |
F F% |
F F% |
|
Sim |
6 40 |
4 26.67 |
10 33.33 |
|
Não |
9 60 |
11 73.33 |
20 66.67 |
|
TOTAL |
15 |
15 |
30 |
Test exacto do Fischer p= 0.70 (a uma cauda)
p ajustada= .99
TABELA 4
HUMOR E ESP
|
|
L. H.[5] |
H. H.[6] |
TOTAL |
|
ACIERTO |
F F % |
F F% |
F F% |
|
Sim |
7 35 |
3 30 |
10 33.33 |
|
Não |
13 65 |
7 70 |
20 66.7 |
|
TOTAL |
20 |
10 |
30 |
Test exacto do Fisher p= 1 (a dois caudas)
TABELA 5
EXPECTATIVA E ESP
|
|
L. E.[7] |
H. E.[8] |
TOTAL |
|
ACIERTOS |
F F % |
F F% |
F F% |
|
Sim |
4 28.6 |
6 37.5 |
10 33.33 |
|
Não |
10 71.4 |
10 62.5 |
20 66.7 |
|
TOTAL |
14 |
16 |
30 |
Test exacto do Fisher p= .90 (a dois caudas)
Phi= .02
p ajustada= 1
TABELA 6
MOTIVAÇÃO E ESP
|
|
L. M.[9] |
H. M.[10] |
TOTAL |
|
ACIERTOS |
F F % |
F F% |
F F% |
|
Sim |
5 40 |
5 41.7 |
10 33.33 |
|
Não |
13 60 |
7 58.3 |
20 66.7 |
|
TOTAL |
18 |
12 |
30 |
Fisher’s exact test p= .68 (a dois caudas)
Phi= .08
p ajustada= .99
Análises adicionais incluíram relações entre outras variáveis, tais como relaxação, humor, expectativa e motivação com os acertos nas sessões de ganzfeld. Decidimos utilizar para a análise estatística a prova de Chi quadrado para duas amostras, mas como no caso anterior e por igual motivo teve-se que substituí-la pela prova exata de Fisher. O nível de significação se fixou em .05.[11]
As variáveis relaxação, humor, expectativa e motivação foram medidas em uma escala ordinal (de 1 a 10) e se utilizou o mesmo procedimento mencionado com anterioridade de dividir pela Média para formar os dois grupos. A significação foi ajustada à quantidade de provas realizadas, em neste caso 4. Usamos para ele a fórmula 1 - (1-alfa), de onde k é quantidade de comparações independentes ou de provas realizadas. Nas análises se tomaram os 30 sujeitos que participaram da experiência já que neste caso não foi necessário eliminar da análise os sujeitos com valores baixos na variável Sinceridade. Os resultados destas análises estão apresentados na Tábua 3, 4, 5 e 6.[12]
Não foram obtidos resultados significativos em nenhum caso.
DISCUSSÃO
Se bem que outros investigadores tenham empregado o NEO-PI como escala em outros estudos ganzfeld (Morris et al.,1993), nós utilizamos o EPI como uma forma de medir a extroversão. Outras investigações relacionam psi com escalas de personalidade além da extroversão (Palmer, 1978; Sargent, 1981).
Foram levados a cabo diversos estudos globais que relacionam a ESP com a extroversão. A meta-análise de Honorton et al (1990) demonstrou uma relação significativa entre psi e extroversão em estudos de resposta livre (p= .0000083), por exemplo, se selecionaram 60 investigações independentes empregando 2963 sujeitos. O exame da relação entre a ESP empregando testes de resposta rigorosa com sujeitos extrovertidos ficou limitada àqueles sujeitos que faziam os testes de ESP antes de classificá-los como extrovertidos. Pelo contrário, não houve evidência alguma de uma relação e extroversão ESP naqueles estudos onde se classificavam os sujeitos como extrovertidos antes de executar os testes de ESP. A diferença entre estas duas condições foi significativa (p= .000.45). Também houve uma relação significativa e homogênea de extroversão-ESP (p= .0000083) para o subconjunto de estudos de resposta livre que incluíam experimentos individuais. Este efeito foi homogêneo em todos os investigadores e escalas de extroversão revisados. Uma combinação de ambos os estudos (os de resposta livre e os de resposta rigorosa) resultou em uma correlação média pequena e global (r= .09), que continua sendo significativa (p=000004).
Também se repetiu uma correlação significativa entre os estudos de resposta livre e extroversão na base de dados de auto-ganzfeld. Foram obtidas pontuações de extroversão em 221 dos 241 sujeitos, que completaram em sua totalidade um questionário MBTI, que tem uma escala de extroversão. Nenhum dos estudos nas meta-análises têm usado esse questionário como uma forma de classificar dimensões de personalidade. A correlação entre a ESP e a extroversão para as séries de PRL foi significativa, e próxima do resultado meta-analítico dos estudos de resposta livre. Em conseqüência, nos parece que esses resultados são consistentes com os de extroversão (nossa dimensão de personalidade) durante sessões de ganzfeld e confirma a primeira hipótese em onde as pontuações de E se correlacionaram positiva e significativamente com os acertos dos sujeitos. Não obstante é interessante assinalar que a diferença encontrada entre introvertidos e extrovertidos é bastante ampla, e sua magnitude de efeito é importante, em que pesem as relações usualmente débeis entre as variáveis encontradas em outros numerosos desenhos. Nós nos perguntamos se a técnica Ganzfeld interage com a variável extroversão, já que se bem se espera encontrar maior quantidade de acertos em geral por efeito da técnica Ganzfeld, de não haver interação, este incremento teria de ter-se distribuído por igual em ambos os grupos, mantendo os mesmos níveis de diferença nos acertos entre as dimensões de personalidades (introvertidos e extrovertidos) encontrados com outros tipos de provas de ESP.
Devemos mencionar, sem dúvida, que a amostra é pequena, recrutada em sua maioria entre os cursos de parapsicologia, e conduzida sobre um grupo de sujeitos crentes na ESP, a pesar de que os resultados que relacionavam expectativa e motivação antes da experiência sobre sujeitos voluntários, todos crentes em psi, não obtiveram resultados significativos em relação com a ESP (ver Tábuas 3, 4, 5 e 6). A crença em psi é uma variável importante, que deve ser considerada se atribuirmos nossos resultados a sua lista potencializadora. Sem dúvida, cremos que há problemas complexos com esta variável. Se bem que a técnica ganzfeld possa servir como um “ritual” para ressignificar a experiência psi do sujeito, os parapsicólogos deveriam ser capazes de executar projetos com participantes crentes e não-crentes (“cabras” na terminologia de Schmeidler), e, em conseqüência, discriminar um efeito “placebo” que alimente a crença na ESP. Porém, essa questão é, em si mesma, complexa (Schmeidler & McConnell, 1958). Por uma parte, o desempenho de ESP em ganzfeld poderia ser muito mais ansiogênica para os não-crentes, os quais podem ser apenas “cabras” em aparência, em conseqüência da qual a psi ficaria inibida, a pesar que pesquisas recentes demonstrem que a crença em fenômenos paranormais na população em geral é bastante alta (Haraldsson y Houtkooper, 1991). Por outra parte, a participação de sujeitos não-crentes como voluntários é rara e difícil de conseguir, assim como pessoas não-crentes as quais são pagas por sua participação no experimento (como acontece em muitos outros estudos em ciências sociais), o qual nos exigiria recursos econômicos que atualmente não possuímos.
Certamente devemos explorar profundamente esta variável talvez a partir de uma perspectiva mais fenomenológica do que experimental. Um futuro projeto deverá incluir as seguintes considerações: (a) Uma medição da expectativa de êxito do participante do experimento, o tipo e freqüência de suas experiências psi anteriores, as quais estejam relacionadas com a “crença”, possivelmente exercerá força sobre o desempenho ESP em ganzfeld. (b) Explorar o estado de ânimo e as expectativas de êxito dos participantes da encenação experimental pode proporcionar informação valiosa que não deve ser subestimada. Em geral, a tendência de muitos experimentadores psi de prestar atenção às condições psicológicas do participante “receptor” da informação ESP somente, de forma isolada, desvia o interesse pela exploração psicológica do participante “emissor”. (c) É possível que algum dos muitos fatores que intervêm na técnica ganzfeld influa potenciando –e algum modo– a diferença normalmente encontrada entre ambas dimensões da personalidade. Em conseqüência, devemos projetar experimentos que permitam estudar se a condição ganzfeld é, por si mesma, facilitadora do desempenho ESP, por exemplo alternando as condições ganzfeld x não-ganzfeld com cada sujeito, correlacionando tais condições com outras variáveis de personalidade.
O estudo das verbalizações dos sujeitos durante o ganzfeld também deveria incluir uma análise fenomenológica. A partir de uma perspectiva parapsicológica, os investigadores psi usualmente aplicam o procedimento ganzfeld para incrementar o número de acertos da ESP e a maioria tem conduzido estudos avaliando a significação estatística dos resultados com sujeitos crentes na ESP. Os participantes do experimento assumem que o desempenho da ESP se otimizará se encontram relações entre suas mentalizações e o objetivo ou diretamente acertam o objetivo, mas muita informação ESP valiosa pode extraviar-se ou bem não ser apropriadamente considerada se não se ajusta às propriedades de seus objetivos. Isto também está implicado no efeito que a “crença” exerce sobre o participante. Um projeto deveria permitir-nos explorar o protocolo ganzfeld independentemente do contexto parapsicológico. Isto é, os participantes do experimento ganzfeld deveriam ser igualados com participantes submetidos ao mesmo protocolo, os quais ignoram que estão participando de um experimento psi, ou assumindo que essa condição nada tem a ver com estudo parapsicológico algum. Essa condição é difícil de administrar, especialmente para os investigadores de um laboratório ou