OS FENÔMENOS PSICOBIOFÍSICOS NO CONTEXTO DA TEORIA DO CAOS
Ronaldo Dantas Lins
RESUMO
Muitos fenômenos da natureza
apresentam resultados cada vez mais divergentes quando produzimos pequenas
alterações iniciais. Esses são denominados de dependência hipersensível das
condições iniciais (DCI), sendo o pano de fundo dos fenômenos caóticos. Os
eventos paranormais apresentam inúmeras variáveis, muitas das quais
desconhecidas, que apresentam valores diferentes nas novas situações de vida
de um indivíduo, podendo bloquear a deflagração destes fenômenos, haja vista
dependerem hipersensivelmente das condições iniciais. Este novo paradigma (o
do caos), coloca a Parapsicologia em seu devido lugar (dentro do
conhecimento científico), por demonstrar que a não replicabilidade é
inerente aos eventos passíveis de uma investigação científica.
Por detrás do universo
observável, parece existir uma realidade implícita, pela qual todas as
coisas se interconectam, mostrando que eventos distintos estão, em um
determinado nível, relacionados. Dois indivíduos, por exemplo, podem se
comunicar telepaticamente, independente do espaço-tempo, por representarem,
em nível de uma ordem desdobrada, o mesmo objeto.
O autor propõe que o fenômeno
paranormal deve se efetuar pelo bloqueio das funções inibidoras
r
(rô), na produção de psi-gama e t
(tau) , na produção de psi-kapa.
1. DEPENDÊNCIA HIPERSENSÍVEL DAS CONDIÇÕES
INICIAIS E A TEORIA DO CAOS
Muitos fenômenos na natureza
apresentam uma evolução muito rápida, dita exponencial, como por exemplo, a
reprodução de determinados micro-organismos. Esta transformação rápida
permite, em certos casos, que mudanças significativas ocorram em um
intervalo de tempo relativamente pequeno, se a ele estiverem associadas
outras características da transformação.
No Instituto de Tecnologia de
Massachusetts, em 1961, o pesquisador Edward Lorenz, buscando estudar uma
determinada seqüência de eventos metereológicos (expresso em números que
indicavam velocidade do vento, umidade do ar etc.), procurou seguir um
caminho mais curto, digitando os valores diretamente da listagem anterior.
Depois de aproximadamente uma hora, retornou para examinar a listagem
impressa pelo computador que, esperava ele, fosse idêntica a anterior.
Percebeu, entretanto, que estes a partir de determinado instante, divergiam
cada vez mais. Em princípio imaginou que alguma coisa estivesse errada com o
seu computador. Entretanto, depois de reexaminar sua aparelhagem, verificou
que nada estava errado com ela. Foi então que percebeu que havia cometido um
pequeno engano (1). Na listagem anterior os números apresentavam seis casas
decimais, enquanto havia digitado apenas três algarismos na nova listagem.
Era um erro de um para mil que, esperava ele, não trouxesse grandes
repercussões, porém, foi exatamente o contrário que aconteceu. Em outros
fenômenos esta mesma característica é observada. Analisemos, por exemplo, um
jogo de bilhar com obstáculos redondos (convexos) descritos abaixo:
Suponha que tenhamos sobre uma
mesa de bilhar uma bola real e uma bola imaginária, inicialmente no mesmo
local (2). Impulsionemos as duas bolas simultaneamente, porém com direções
ligeiramente distintas, em que o ângulo entre elas seja quase imperceptível.
Observa-se, com o tempo, que as trajetórias das duas bolas divergem cada vez
mais. O fenômeno é determinístico no sentido de sermos capazes de descrever
a trajetória da bola se soubermos exatamente o ângulo inicial com a qual ela
foi impulsionada. Entretanto, existe certa indeterminação das condições
iniciais que não permite saber com precisão este ângulo, que produzirá uma
indeterminação no futuro evolutivo do sistema. O fenômeno é caótico, porém
guarda em si um certo grau de determinismo. Eventos que se comportam da
maneira descrita anteriormente são denominados de dependência hipersensível
das condições iniciais.
Poincaré já afirmou (3): "Uma
causa muito pequena, que nos passa despercebida, determina um efeito
considerável que não podemos deixar de ver, e então dizemos que o efeito é
devido ao acaso. Se conhecêssemos exatamente as leis da natureza e a
situação do universo no momento inicial, poderíamos prever exatamente a
situação desse mesmo universo no momento seguinte. Contudo, mesmo que as
leis naturais já não tivessem segredo para nós, ainda assim, poderíamos
conhecer a situação aproximadamente. Se isso nos permitisse prever a
situação seguinte com a mesma aproximação, seria tudo o que precisaríamos, e
diríamos que o fenômeno tinha sido previsto, que é governado por leis. Mas
nem sempre é assim: pode acontecer que pequenas diferenças nas condições
iniciais produzam diferenças muito grandes nos fenômenos finais. Um pequeno
erro nas primeiras produzirá um erro enorme nas últimas".
A dependência hipersensível
das condições iniciais (DCI)*,
também chamada efeito borboleta (4), nos diz que pequenas alterações em
algum ponto do universo pode provocar grandes alterações em outro ponto,
estando intimamente relacionado com os fenômenos caóticos.
O caos é hoje compreendido não
como um processo sem nexo, mas sim como um evento com estrutura interna que
apresenta DCI.
Outros exemplos de fenômenos
caóticos são: processo de convecção, distribuição de buracos no cinturão de
asteróides, a roda d'água lorenziana, metereologia etc.
2. PARADIGMA CIENTÍFICO: CAOS E
PARAPSICOLOGIA
A delimitação precisa do que é
ciência, separando-a das demais fontes do conhecimento (filosófico,
religioso, empírico) não é um tema de concordância entre os autores (5).
Cada um procura dar uma definição de ciência, destacando as características
que entendem sejam da maior relevância para caracterizar este tipo de
conhecimento. Entre as inúmeras definições existentes, destacamos a de
Trujillo: "A ciência é todo um conjunto de atitudes e atividades racionais,
dirigidas ao sistemático conhecimento com objeto limitado, capaz de ser
submetido à verificação".
Por muito tempo a
verificabilidade foi considerada o principal critério de cientificidade de
uma hipótese. Um enunciado é verificável quando possibilita identificar o
experimento que o torne verdadeiro. Este principio permite incluir como
cientifico mitos e idéias metafísicas, sendo portanto inapropriado. Tentando
suprir esta falha, Popper (7) propôs um novo critério de cientificidade, a
falseabilidade. Por este princípio, para um enunciado ser cientifico terá
que ser refutado. Baseado nisto, idéias metafísicas seriam científicas,
conseqüentemente, este critério também é falho (8).
Se os próprios cientistas não
se entendem entre si sobre o que vem a ser em essência o conhecimento
científico, por que alguns não aceitam a Parapsicologia como uma ciência?
Em primeiro lugar isto decorre
desta dificuldade de conceituação, que vem a permitir ser a Parapsicologia
considerada ciência por uns critérios e por outros não. Em segundo lugar a
não replicabilidade dos fenômenos paranormais é considerado o fator mais
importante para a existência desta reatividade.
Em relação a esta questão,
temos a considerar que este argumento pode ser em parte válido para os
fenômenos espontâneos, não se aplicando àqueles realizados em laboratório,
onde bem se adaptam os modelos da estatística. Mesmo para os fenômenos
espontâneos, faz-se necessário uma reflexão mais profunda.
Como vimos anteriormente, a
ciência está passando por um processo de transformação importante, em que um
novo paradigma, o caos, vem ganhando espaço a cada dia. Os fenômenos
caóticos, irregulares, não replicáveis, passam a ter um destaque maior,
permitindo que entremos em contato com novas realidades, com novos
princípios, antes não percebidos, comandando os fenômenos da natureza. Como
vimos, condições iniciais muito próximas podem levar a resultados totalmente
diferentes, devido a DCI (9). Assim, um experimento que funcionou no
passado, pode não funcionar no futuro, devido a pequenas alterações em
algumas variáveis, perceptíveis ou não. Uma das conseqüências mais
importantes deste fato é a imprevisìbilidade e, conseqüentemente, a não
replicabilidade de determinados fenômenos, que não deixam de ser científicos
por isso, muito pelo contrário, ganharam atualmente uma posição de relevo em
ciência.
Por que exigir que os
fenômenos paranormais sejam replicáveis e outros fenômenos não?
Como vemos, um dos principais
argumentos que impede a ascensão da Parapsicologia à categoria de ciência,
foi derrubada pelo próprio conhecimento científico.
Além de sua presença no
aspecto metodológico, também encontramos o caos caracterizando certos tipos
fenomênicos estudados pela Parapsicologia. Neste sentido, desde a época de
Rhine, os pesquisadores observaram que a mente parece influenciar mais
facilmente um objeto em movimento caótico do que em estado estacionário. Por
isto parece ser mais fácil agir psicocineticamente sobre um dado em
movimento, no sentido de que este apresente determinada face voltada para
cima, do que atuar sobre um dado parado, imprimindo-lhe um movimento (10).
Estas idéias direcionaram a
pesquisa de psicocinesia para os sistemas aleatórios, como as partículas
subatômicas, dando origem à micro-psicocinesia. A mente parece atuar sobre a
desintegração atômica, osciladores e fenômenos análogos, com muita
eficiência.
Parece que, quanto mais
caótico for um sistema, mais facilmente ocorrerá uma ação psicocinética
sobre ele. A caoticidade também está presente em fenômenos biológicos de
natureza fisiológica ou patológica. Na neoplasia, por exemplo, a reprodução
descontrolada de determinado tipo celular que apresenta uma evolução mais
caótica no caso da leucemia (neoplasia sanguínea) por estarem as células em
permanente movimento, permitindo uma maior facilidade de interação com a
mente e, conseqüentemente, utilizá-la no tratamento desta patologia.
Refletindo sobre estas
ponderações, propomos aqui um experimento que leva em consideração todos
esses fatores mencionados, apresentando uma dificuldade em sua praxidade
(escassez de voluntários), que é o seguinte:
1. Selecionar casais que
pretendem ter filho de um determinado sexo.
2. Orientá-los sobre os
aspectos fisiológicos e as implicações psicológicas da gravidez.
3. Efetuar exames que permitam
demonstrar a fertilidade do casal.
4. Realizar estudo do ciclo da
mulher, para que possa ser realizado o ato sexual no período mais fértil.
5. Orientar o casal para
manter relações sexuais na fase mencionada anteriormente, temporalmente
próxima ao instante de efetivação da experiência.
6. Colocar o casal na presença
de um paranormal (ou mesmo à distância), para que este possa atuar sobre
determinado grupo de espermatozóides (X ou Y) para que, sob ação
psicocinética, um dos dois grupos seja favorecido.
7. Analisar estatisticamente o
resultado de vários casos, com a finalidade de verificar se o percentual de
êxitos ultrapassa o previsto pelo acaso.
Evidentemente que o paranormal
deverá ser bem orientado, inclusive com esclarecimentos sobre fecundação,
que poderá ajudar ou não a consecução do fenômeno. Esta experiência poderá
ser realizada, com as devidas modificações, em animais de laboratório.
A idéia é que o fluxo de
espermatozóìdes constìtui um sistema caótico e em movimento que, pela
hipótese mencionada, deve ser susceptível a ação psicocinética.
3. PRINCÍPIO DA NÃO LOCALIDADE
Nossa formação cultural nos
fornece uma percepção do universo constituída de entes separados entre si
por elementos do espaço e do tempo. O espaço e o tempo constituem realidades
externas ou serão apenas constructos materiais elaborados pelo ser humano,
para que este possa apreender os fenômenos da natureza?
Para o filósofo alemão
Emmanuel Kant o espaço e o tempo são entes a priori, inerentes à
mente humana, na qual o homem coloca as coisas e os seres, sem que tenha uma
existência real no sentido aristotélico.
A teoria da relatividade de
Albert Einstein nos fornece uma nova concepção, a de que o espaço e o tempo
constituem um "continuum" e que este se encontra irremediavelmente
relacionado à existência da matéria-energia.
Numa abordagem contemporânea,
concebemos que os objetos não se encontram separados, existindo em um outro
nível de realidade, não apreendido pelos nossos sentidos usuais, conexões
profundas, semelhantemente a um sincício, permitindo que, em essência, o
universo vibre em uníssono, como um ente homogêneo e único.
Já afirmou Heisenberg: "O que
nós observamos não é a natureza propriamente dita, e sim a natureza exposta
em nosso método de questioná-la". Não apreendemos a realidade, supondo que
ela exista, e sim nosso processo de interação com ela.
O princípio da
complementariedade de Bohr nos mostra que a luz se apresenta ora como onda,
ora como partícula, dependendo do experimento realizado, nos indicando que
estamos aferindo propriedades da interação observador-luz (via determinado
método) e não da entidade-luz. (11)
Devido às limitações de nossos
sentidos, percebemos pequenos fragmentos da realidade e imaginamos o todo
pela parte percebida. É como na parábola hindu do elefante, percebido pelo
tato de quatro cegos que tocam uma parte apenas do referido animal, qual
seja: a cauda, a tromba, a pata e o dorso. Ao tentar descrever o objeto
percebido, suas colocações divergem afirmando tratar-se respectivamente de:
uma corda, uma cobra grande, uma coluna e um muro alto (12). Além do objeto
da observação ser apreendido inadequadamente, este é interpretado como
vários entes distintos, separados pelo espaço-tempo, quando em realidade se
trata da mesma estrutura.
A idéia cartesiana de mente
restringe-se ao nível consciente, sendo desprezado o aspecto inconsciente,
só posteriormente colocado em local de importância por Freud e outros
autores. Essa idéia restrita da maquinaria mental, e que influenciou
fortemente a ciência, foi desastrosa no sentido de não abranger toda uma
gama de estímulos e percepções, necessários para uma melhor compreensão da
realidade.
Tinoco comenta: ''Como
conseqüência direta do significado dos "estados virtuais", onde a função de
onda associada a uma partícula elementar está espalhada por uma enorme
região do espaço, a mecânica quântica faz uma predição mais forte e
revolucionária. Isto pode ser expresso, dizendo-se que pode haver ligações e
correlações entre partículas ou acontecimentos muito distantes, na ausência
de qualquer força ou sinal intermediário e essa ação à distância acontece de
modo instantâneo. Esse fenômeno conhecido como ''Princípio da
Não-Localidade", pode ser estabelecido, dizendo-se que alguma coisa pode ser
afetada na ausência de qualquer causa local. Esse princípio está expresso no
teorema de Bell e parte da concepção baseada na natureza indeterminada da
realidade, como sugerem as equações de onda da mecânica quântica”.
Para a teoria quântica, não há
partes isoladas da realidade, mas, antes, apenas fenômenos muito intimamente
relacionados, como se fossem inseparáveis, qualquer que seja a distância
entre essas partes".(13) O paradoxo Einstein-Podolsk-Rosen (EPR), descrito a
seguir, representa um exemplo desta nova concepção.
Suponha um elétron e sua
antipartícula, o pósitron. Quando da criação deste par, seus componentes
possuem spins contrários (que pode ser interpretado aproximadamente como
movimentos rotacionais em sentidos opostos).
Promovendo o afastamento entre
essas partículas, por maior que seja a distância, se alterarmos o spin de
uma, a outra terá o seu spin invertido instantaneamente, ocorrendo desta
maneira uma correlação instantânea, contrariando aparentemente a teoria da
relatividade de Einstein, que prevê um limite para a velocidade de
propagação das interações, que jamais será infinita. Esta afirmação se
aplica bem a macrossistemas, mas não a microssistemas. Esta posição da
mecânica quântica (novo paradigma) contraria a teoria da relatividade
(paradigma vigente). (14)
Em um outro momento, Tinoco
nos lembra que: "Com o aperfeiçoamento da tecnologja, foi possível aos
fisicos Alain Aspect, Philippe Graangier e Gerar Roger demonstrarem a
veracidade das previsões da mecânica quântica. Usando, não um par
elétron-pósitron, mas um par de fótons, emitidos por uma cascata de cálcio
radioativo, foi verificada mais uma vez, em 1982, a validade das previsões
da mecânica quântica: as correlações instantâneas existem. Como pode a
partícula A, interagindo com a partícula B, "perceber" instantaneamente a
mudança ocorrida em B, de modo a mudar no mesmo instante o seu spin? Essa
questão não tem resposta, a menos que se admita que as partículas A e B
nunca estiveram separadas. Desde o surgimento delas, A e B formam um só
sistema, independente da distância que as separa. Isso parece estar
associado à telepatia. '' (15)
Assim, para explicar o
paradoxo EPR, Bohm postulou que as duas partículas formavam um todo
indivisível e que o paradoxo era uma conseqüência da suposição errônea de
constituírem entes distintos.
O físico americano David Bohm,
estudando o quarto estado da matéria (o plasma) verificou que apesar das
partículas constitutivas do plasma apresentarem individualmente um movimento
caótico, em conjunto formam um todo organizado, como se fosse um ser vivo.
Constatou, assim, que não apenas duas partículas (o par elétron-pósitron, no
paradoxo EPR), mas trilhões de elétrons parecem se comportar como um único
ente, em que qualquer um dos seus componentes parece ''perceber"
instantaneamente, o que ocorre com as outras partes. Desta maneira, parece
existir um nível de realidade mais profundo, denominado potencial quântico,
preenchendo todo o espaço, de intensidade constante. Bohm chega a
compreensão de que é o todo que determina o comportamento das partes.
As duas partículas do paradoxo
EPR formam uma unidade indivisível entre si e com as outras partículas do
universo, não havendo diferenças locais, sendo compreendido como um ente
único e não separados. Não há, assim, um sinal de velocidade infinita
deslocando-se no espaço. Bohm faz a seguinte analogia para poder representar
este processo: ''Tomemos a situação de um peixe nadando num aquário, cuja
imagem é captada simultaneamente por duas câmeras de TV, situadas em
posições diferentes. É preciso fazer de conta que não temos acesso direto ao
aquário e nunca vimos um peixe antes. As únicas informações de que dispomos
a respeito são as fornecidas pelos dois monitores de TV. Nossa primeira
impressão será, com certeza, de que as duas imagens constituem entidades
diferentes e separadas. À medida que avançam nossas observações, porém,
percebemos que os dois peixes apresentam estreita relação entre si: quando o
peixe A se vira, o peixe B executa um giro diverso, porém correspondente ao
do primeiro. Há sempre simultaneidade nos dois movimentos. Podemos ser
tentados a explicar essas "estranhas coincidências", dizendo que existe uma
comunicação instantânea entre os dois peixes. Mas o fato é que, num nível
mais profundo da realidade, a realidade do aquário, eles são apenas um".
(16)
Parecem existir diversos graus
de ordem no universo; os fenômenos que se nos apresenta caótico podem
apresentar uma ordem oculta. Bohm denominou de "ordem implícita" a
organização básica da existência, em que é evidente a conexão de todas as
coisas como uma entidade única. Este substrato também é denominado de
"dobrado". Em um outro nível temos a realidade cotidiana, denominada "ordem
explícita" ou "desdobrado". Assim, as partículas não são unidades separadas,
mas atualizações efêmeras de uma organização ilimitada subjacente. Ao
percebermos uma partícula ou evento em particular, estamos apreendendo
apenas o desdobramento deste estrato mais profundo.
Fundamentado na holografia,
Karl Pribam indaga sobre a possibilidade de o mundo ser um holograma, um
domínio de potencialidades no entender de Bohm, não passando os objetos
materiais de mera ilusão.(17).
Somos conhecedores dos limites
físicos do nosso organismo, mas não de nossas relações com o mundo exterior.
Percebemos, não a realidade em si, mas o que foi selecionado pelo cérebro. O
corpo responde aos pensamentos do indivíduo, refletindo suas apreensões e
desejos internos. "A pesquisa parapsicológica tem verificado que o corpo não
responde apenas aos pensamentos do pensador, mas também aos pensamentos de
outras pessoas, como acontece no processo telepático." (18)
O fenômeno paranormal, tanto
psi-gama como psi-kapa, parece efetuar-se via realidade implícita, em que o
conteúdo paranormal ou a interação psicocinética entre o agente psi e o
objeto alvo, se dá não por propagação de um sinal através do espaço-tempo,
mas sim pela percepção e ação momentânea de propriedades sistêmicas,
explicitadas através do agente psi e observada por indivíduo na condição
usual da ordem explícita (desdobrada).
4. FUNÇÕES PSÍQUICAS INIBIDORAS
As observações do Dr. Sarti
permitiram a formulação da denominada PRIMEIRA LEI DA PARAPSICOLOGIA, que
consiste no seguinte:
"O aparelho psicológico não
está restrito aos limites físicos do sistema nervoso, preenchendo todas as
regiões do espaço-tempo, independentemente das grandezas das medidas de
distância e tempo".
Como primeiro corolário temos:
"O aparelho psicológico contém potencialmente todas as informações
obteníveis do espaço-tempo, independentemente das grandezas das medidas de
distância e tempo."
Considerando que parte do
espaço-tempo se encontra ocupado pela matéria-energia, temos o seguinte
corolário: "O processo parapsicológico de aquisição de conhecimentos pelo
aparelho psicológico não é afetado pela presença de matéria ou campos
físicos que se situem entre a fonte de informações e o sistema nervoso."
(19).
Outro conceito importante para
a abordagem que pretendemos realizar é o de "link", compreendido como:
"Acoplamento de um pensamento a um sistema nervoso ou a outro objeto físico.
A nossa consciência é resultado de um "link" entre um pensamento e um
sistema nervoso... No paranormal, estados ampliados de consciência estão
relacionados a alterações elétricas no sistema nervoso, geralmente a uma
redução de sua atividade. Em ambos os casos, desacoplamento total ou
parcial, o pensamento pode estabelecer um "link" externo, fora do sistema
nervoso do morto ou do paranormal, e provocar o fenômeno psi".(20).
Podemos idealizar dois tipos
de informação:
a) Informação sintática - que
é mensurável (medida em bits), sendo de natureza física.
b) Informação semântica - que
não é mensurável, consistindo no conteúdo do pensamento, de natureza não
física.
Postula-se a existência de
duas funções psíquicas cognitivas, de natureza inibidora: a função
j
(fi) e a função r
(rô).
A função
j
bloqueia o acesso simultâneo ao córtex cerebral de todos os influxos
aferentes, não permitindo uma desorganização da consciência e recrutamente
indiscriminado dos neurônios corticais com produção de crise convulsiva.
A função
j
apresenta as seguintes características:
"A - Percebe e seleciona
semanticamente informações sintáticas que possam associar-se semanticamente
aos conteúdos da consciência.
B - Age nas vias aferentes do
sistema nervoso estando portanto associado à estimulação do ambiente local.
C - É desempenhado pelo
sistema de ativação reticular ascendente." (21).
Assim, a função
j
é um mecanismo mente/neuronal que atua eliminando as informações sensoriais
desnecessárias, que produziriam uma sobrecarga na estrutura psíquica. Grande
parte do que apreendemos é eliminado para possibilitar o arquivamento de
novos conteúdos.
Horta Santos propõe a
existência de um fator de repressão denominado
r
. Esta função impede que tenha acesso à consciência as informações
universais referidas na primeira lei da Parapsicologia. Estas informações
são semanticamente graváveis no córtex cerebral, diretamente, sem atingir as
vias sensoriais clássicas.
O fator de repressão
r
apresenta as características a seguir:
"A - É de natureza neurológica
ou psicológica.
B - Impede a representação
consciente das informações universais.
C - É exercido pela própria
atividade sensorial, pelo hemisfério dominante ou por fato representativo da
psicologia do indivíduo." (22).
De maneira análoga, postulamos
a existência de duas outras funções psíquicas inibitórias: a função
p
(pi) e a função t
(tau).
A função
p
consiste num mecanismo inibitório de determinados impulsos eferentes do
organismo. Estes podem ser endógenos (batimentos cardíacos, secreção
glandular, etc.) ou exógenos (atividade motora estriada). Sem a atuação
deste fator inibitório estaríamos em permanente processo de espasticidade,
secreção endógena, etc. Esta função seleciona as atividades efetoras que
devem ser produzidas bem como sua distribuição temporal e intensidade.
O tronco cerebral possui uma
porção neural central denominada formação reticular que pode ser dividida em
duas zonas: a potente formação reticular facilitadora e a menos potente
formação reticular inibidora.
A formação reticular
facilitadora recebe aferências descendentes do córtex motor (principalmente
a área motora pré-central, suplementar e secundária), núcleos da base e
cerebelo controlando a atividade desta formação. "Sem a influência
controladora proveniente de estruturas superiores, a formação reticular
facilitadora é liberada e, conseqüentemente, ocorre um aumento nas descargas
descendentes que agem sobre os centros medulares." (23).
Desta maneira, a função pi
impede que os impulsos eferentes provenientes, principalmente da formação
reticular facilitadora e inibidora, promovam rigidez, espasticidade ou seus
equivalentes sobre o organismo.
A função
p
apresenta as seguintes características:
A - Controla ou suprime a
atividade eferente excitatória (glandular; motora estriada, lisa e
cardíaca).
B - Age nas vias eferentes do
sistema nervoso.
C - É desempenhada pelo córtex
motor, núcleos da base, cerebelo, hipotálamo e sistema límbico.
O sistema nervoso possui uma
atividade implícita permanente que deve ser bloqueada por algum mecanismo,
que denominamos de função tau. Este fator limite inibe a atividade efetora
paranormal, ou seja, psicocinesia. Tudo se passa como se houvesse um ''link"
entre a mente e a matéria, permitindo uma interação não-local, de
conformidade com o princípio da não localidade. O bloqueio deste "link"
interrompe esta interação, impedindo o aparecimento de psicocinesia . Na
maior parte do tempo, a maioria das pessoas apresenta uma ativação desta
função; o seu bloqueio liberaria o referido "link", permitindo que em nível
da ordem desdobrada seja percebida a realidade implícita que interliga os
seres. Quando isso ocorrer, diz-se que foi deflagrado um fenômeno paranormal
do tipo psi kapa.
Da primeira lei da
Parapsicologia podemos extrair um terceiro corolário:
O psiquismo possui o potencial
de agir sobre o mundo fisico, sem necessidade de intermediação
energético-material, promovendo o deslocamento de massas ou perturbações de
campos energéticos.
A ativação do "link" no
sentido aferente produziria os fenômenos de psi gama e, no sentido eferente,
os fenômenos de psi kapa.
A função de repressão
t
apresenta as características a seguir:
A - É de natureza
neurológica ou psíquica.
B - Impede a atualização
(manifestação) das interações (ações) universais, implícitas na primeira lei
da Parapsicologia e explicitadas no terceiro corolário dela decorrente.
C - É exercida pela própria
atividade eferente, através de estruturas neurais superiores.
Os fatores circunstanciais
deflagradores do fenômeno paranormal, favorecem a formação de um processo
inibitório cortical que ao se intensificar, promove a liberação de
estruturas subcorticais, livres da ação frenadora superior. Ocorrerá
psicocinesia quando houver uma inibição do fator de repressão
t,
promovendo um desbloqueio do "link" mente-mundo físico. (24).
5. CONCLUSÃO
Refletindo sobre os tópicos
abordados, podemos concluir que:
1. Os fenômenos paranormais
são deflagrados por inúmeros fatores, muitos dos quais ainda são
desconhecidos.
2. Estes fenômenos são de
dependência hipersensível das condições iniciais, apresentando-se em
diversas gradações (de nulo a plena), sem que possamos precisar com certeza
o estado que irá apresentar após algum tempo, haja vista a grande
indeterminação das condições iniciais, tanto pelos fatores desconhecidos
como pela ignorância do nível de apresentação das variáveis conhecidas.
3. Os sistemas dinâmicos
aleatórios apresentam um baixo limiar de resposta à ação psicocinética.
4. A teoria do caos traz um
novo paradigma científico, em que os fenômenos caóticos não são vistos como
anomalias, mas sim como elemento fundamental na compreensão da estrutura do
universo. Como conseqüência, a replicabilidade não é condição essencial para
determinar a cientificidade de uma hipótese.
5. Um dos principais
argumentos contra a aceitação da Parapsicologia como ciência, a não
replicabilidade dos fenômenos psi, perdeu muito em importância com a
verificação de que os eventos caóticos são básicos para a compreensão do
funcionamento do universo.
6. O que apreendemos não é a
realidade, mas a interação homem-método-objeto. Desta feita o observador é
parte integrante, ativa, do fenômeno e não mero expectador.
7. Os fenômenos de psi gama e
psi kapa são apenas formas de apresentação da interação agente
psi-meio-observador, via determinado método.
8. Os fenômenos paranormais
parecem efetuar-se via ordem implícita (realidade dobrada), onde o conteúdo
paranormal ou a interação psicocinética não se processam por propagação de
um sinal na estrutura espaço-tempo e sim pela percepção ou ação de
holopropriedades, explicitadas através do agente psi.
9. Em nível de ordem explícita
(realidade cotidiana), emissor, receptor e objeto são percebidos como entes
distintos, porém, em nível mais profundo, todos os seres estão interligados,
conseqüentemente temos que:
a) O Conteúdo paranormal, de
natureza semântica, não parece ser transportado por um fluxo até o agente
psi, mas aparenta já se encontrar nele, em nível de ordem implícita.
b) O agente psi parece agir
psicocineticamente sobre os seres, não pelo transporte de energia/informação
de um fluxo psi, porém, tudo se passa como se ele mesmo (o agente psi) se
deslocasse juntamente com o objeto, por constituírem, em nível de realidade
dobrada, um ser único, percebido como diferentes em nível de ordem
explícita.
10. Tudo se passa como se a
mente apresentasse quatro funções inibidoras, com as seguintes
características:
a) Função
j
- Atua eliminando as informações sensoriais desnecessárias. O seu bloqueio
promove o surgimento de confusão mental.
b) Função
r
- Impede o acesso à consciência das informações semânticas universais. O seu
bloqueio seletivo produz os fenômenos de psi gama.
c) Função
p
- Inibe os impulsos eferentes do organismo, de natureza endógena ou exógena.
Sua inibição provocaria um estado de espasticidade, secreção glandular, etc.
d) Função
t
- Inibe o "link" mente-matéria, evitando a interação não-local, referida no
princípio de não-localidade. Seu bloqueio libera o referido "link" com a
deflagração de fenômenos de psi kapa.
APÊNDICE
Matematicamente, podemos
conceituar a dependência hipersensível das condições iniciais - DCI, da
seguinte forma:
Seja x a condição
inicial e t um intervalo de tempo transcorrido a partir do início do
processo; depois deste tempo, obtemos um ponto f x. Se x
sofrer uma alteração para x +rx, obteremos o ponto ft x + rfr tx. Dizemos que há DCI quando rft x = (R fr xR / x)rx, onde R
é a derivada parcial, cresce exponencialmente com t.
Mais especificamente, temos DCI quando a norma da matriz Rfr x / Rx das derivadas parciais cresce exponencialmente com t.
ft
é o operador de evolução
temporal, consistindo de uma transformação espacial dos estados do sistema.
Consideramos A o conjunto das posições iniciais possíveis. Na prática não
somos capazes de identificar precisamente as condições iniciais de nosso
sistema. Todos os pontos do conjunto ft A descreve as
diferentes possibilidades que venham a se configurar. Devido a DCI, ft
A não permanece pequeno. Consideremos B como um subconjunto de
A. A intersecção ft A com B, nos fornece as
posições em que B ocorre, em compatibilidade com as condições
iniciais.(25)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1- LORENZ, Edward: "On the Prevalence of
Aperiodicity in Simples System", em Global Analysis, Mgrmela e J. Marsden,
orgs. Nova York, Springer-Verlag, 1979, pág. 55
2- RUELLE, David: "Acaso e Caos", São
Paulo, Editora UNESP, 1993, pág. 20
3- POINCARÉ, Jules Henri: "Ciência e
Método"
4- GLEICK, James: "Caos - A Criação de uma
Nova Ciência", Rio de Janeiro, Editora Campus, 2ª edição, 1990, pág. 20
5- LAKATOS, Eva Maria e MARCONI, Marina de
Andrade: "Metodologia Científica", São Paulo, Editora Atlas, 1983, págs.
22s.
6- TRUJILLO FERRARI, Alfonso: "Metodologia
da Ciência", 2" ed., Rio de Janeiro, Kennedy, 1974, Capítulo 1.
7- POPPER, Karl R.: "A Lógica da Pesquisa
Científica", São Paulo, Cultrix, pág. 346.
8- TINOCO, Carlos Alberto: "Parapsicologia
e Ciência", Biblioteca "Parapsicologia" - Vol 16, São Paulo, IBRASA, 1993,
pág. 169-170.
9- FERRAZ-MELLO, Sylvio: "Caos, Planetas e
Planetóides", Ciência Hoje, Vol. 19, n° 109, maio de 1995, pág. 23.
10- ROGO, D. Scott: "A Mente e a Matéria".
Biblioteca "Parapsicologia" - Vol. 13, São Paulo, BRASA, 1992.
11- OLIVEIRA, Américo Barbosa de: "A
Unidade Esquecida Homem-Universo", Rio de Janeiro, Espaço e Tempo, 1989,
pág. 17
12-OLIVEIRA... : "A Unidade ...", op. cit.
pág. 34
13- TINOCO... : "Parapsicologia e
Ciência", op. cit., pág. 142
14- LINS, Ronaldo Dantas: "Curas por Meios
Paranormais: Realidade ou Fantasia?" Recife, ASPEP, 1995, pág. 60s.
15- TINOCO ...: “ Parapsicologia e
Ciência", op. cit., pág. 144
16- ARANTES, José Tadeu: "A Ordem
lmplícita de David Bohm", Globo Ciência, Ano 5 - nº 49, agosto de 1995,
pág. 48s
17 - BORGES, Valter da Rosa: “Manual de
Parapsicologia”, Recife, Companhia Editora de Pernambuco - CEPE - , 1992,
pág. 26
18- BORGES, Valter da Rosa e CARUSO, lvo
Cyro: "Parapsicologia: Um Novo Modelo (e outras teses)", Recife, Fundação
Antônio dos Santos Abranches - FASA, 1986, pág. 170
19- SARTI, Geraldo dos Santos: "Tópicos
Avançados em Parapsicologia", Rio de Janeiro, EGUSA, 1987, pág. 241s
20- SARTI, Geraldo dos santos: "Psicons -
do Real ao lmaginário" Rio de Janeiro ABRAP, 1991, pág. 04s
21- SARTI ...:'' Psicons...'',
op. cit., pág.16s
22- SARTI ...:''Tópicos...'', op. cit.,
pág. 246s
23- EYZAGUIRRE, Carlos e FIDONE, Salvatore
J.: "Fisiologia do Sistema Nervoso", Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1977,
pág. 224s
24- LINS...: '' Curas por...", op, cit.,
pág. 70s
25- RUELLE...:''Acaso e
Caos'',op. cit., pág, 37 e 89