PERSONIFICAÇÕES SUBJETIVAS: ASPECTOS PSIQUIÁTRICOS, PARAPSICOLÓGICOS E
TRANSCENDENTAIS
1. Introdução
A questão das
personalidades secundárias, ou seja, do fenômeno pelo qual um mesmo
individuo evidencia uma ou mais personalidades além da principal, tem
despertado a curiosidade de estudiosos das mais diversas áreas do
conhecimento, tais como filósofos, líderes religiosos, antropólogos,
sociólogos, psicólogos, psiquiatras, psicanalistas e neurofisiologistas. O
tema tem sido largamente explorado pelo cinema, a televisão e a literatura.
Todos conhecem ou ouviram falar do famoso romance “O Médico e o Monstro”,
onde o personagem principal durante o dia era o pacato médico Dr. Jeckyl e à
noite se transformava no frio e cruel assassino Mr Hide.
Em vista de
as personificações se constituírem em facilitadores das ocorrências de
fenômenos paranormais, acabaram sendo objeto de estudo também dos
parapsicólogos. Neste trabalho, será abordado o fenômeno das personificações
do ponto de vista das ciências e da transcendentologia.
Termo
derivado da palavra latina “persona” que significa “máscara”. Na verdade,
nenhuma das definições dadas por autores diversos são suficientemente
abrangentes. A definição de Allport, entretanto, parece ser pertinente: “A
personalidade é a organização dinâmica, no individuo, dos sistemas
psicofísicos que determinam seu comportamento e pensamento característicos.”
III. Abordagem psiquiátrica das personificações
Em
Psiquiatria, as personificações se incluem entre os chamados transtornos
dissociativos. Estes se constituem em uma perda, psicologicamente induzida,
da consciência, da identidade, da memória, das funções motoras ou
sensoriais. Para o presente estudo, interessa apenas duas modalidades: o
transtorno de personalidades múltiplas e o transtorno de transe e possessão.
No transtorno
de personalidades múltiplas, o individuo evidencia duas ou mais
personalidades bem definidas, sendo que cada personalidade tem seu próprio
nome, idade, sexo, memórias, comportamento e preferências. Já se constatou o
caso de uma moça que evidenciava cerca de oitocentas personalidades
diferentes!
Quando ocorre
a forma comum, com duas personalidades, uma delas geralmente domina sobre a
outra e ambas desconhecem a existência uma da outra.
Testes
psicométricos revelaram diferenças de QI entre diferentes personalidades de
um mesmo indivíduo, bem como exames oftalmológicos demonstraram haver
variações na acuidade visual. Foi constatado que algumas personalidades
chegam até a apresentar transtornos de humor associados, tais como
depressão! Exames realizados através da Tomografia por Emissão de Pósitrons
(TEP) e Fluxo Sangüíneo Cerebral Regional evidenciaram diferenças no
funcionamento cerebral nas diversas personalidades verificadas em um mesmo
individuo.
Estudos da
curva de vida de indivíduos portadores do transtorno revelaram que, na sua
maior parte, sofreram mal-tratos na infância, principalmente de natureza
sexual.
O diagnóstico
pode ser feito mediante entrevista com Amital ou hipnose. O tratamento é
feito com psicoterapia, tentando-se conciliar os afetos em conflito. O
prognóstico é reservado.
No transtorno
de transe e possessão, o individuo evidencia uma perda da identidade e da
consciência do ambiente. O mesmo pode agir como se estivesse tomado por uma
outra personalidade, espírito, divindade ou “força”.
Antigamente
esse transtorno tomava o aspecto de “possessões demoníacas”. Hoje, são mais
encontradiças as “possessões” pelo “Espírito Santo”, “obsessores”, “exus” e
“pomba-giras” (o conteúdo varia com a época e a cultura). Esse transtorno
também deriva de conflitos internos não resolvidos.
O transtorno
de transe e possessão interessa aos parapsicólogos, visto como, em alguns
casos, o individuo evidencia fenômenos paranormais, além dos sintomas
psicológicos que caracterizam o processo. De acordo com diversos relatos, o
“endemoniado” adivinhava os pecados das pessoas, levitava, movia objetos sem
tocá-los, falava de fatos ocorridos à distância, se expressava em idiomas
estrangeiros ou arcaicos, além de evidenciar outros fenômenos. Até o início
do século passado, esses fenômenos eram tidos pela Igreja Católica como
“comprovação” da influência demoníaca sobre as pessoas e condição sine
qua non para que o bispo autorizasse o exorcismo.
Estudos da
personalidade de indivíduos predispostos à dissociação revelaram que os
mesmos apresentam imaturidade e instabilidade afetivas, tendências ao
egocentrismo e à possessão, e sugestionabilidade.
Vale
salientar que transtornos de transe podem surgir no curso de psicoses
esquizofrênicas, ou em decorrência de algum tipo de injúria cerebral, tais
como no traumatismo craniano, na epilepsia do lobo temporal ou nas
intoxicações por substâncias psicoativas.
IV.
Personificações subjetivas
As
personalidades secundárias que se verificam em ambiente religioso não devem
ser consideradas patológicas. Tais personificações, entretanto, têm a
característica de facilitar a ocorrência de fenômenos paranormais,
notadamente os psigâmicos. Daí a conceituação do parapsicólogo Valter da
Rosa Borges de personificação subjetiva como “a modificação, espontânea ou
provocada, da personalidade do agente psi, mediante a qual ele se comporta
como se fosse outra pessoa, fictícia ou real, neste caso quase sempre já
falecida, e, sob essa condição, apresenta fenômenos de psi-gama.”
De acordo com
o mesmo autor, as personiflcações subjetivas apresentam as seguintes
modalidades:
a)
Perspersonificação subjetiva espontânea de pessoa fictícia.
b)
Perspersonificação subjetiva provocada de pessoa fictícia.
e)
Perspersonificação subjetiva espontânea de pessoa real já falecida.
d)
Perspersonificação subjetiva provocada de pessoa real já falecida.
e)
Psicppsicografia personificativa Personificação em alfabeto Braille
f)
Personificação pelo alfabeto dos surdos-mudos
g) Memória
extracerebral
A memória
extracerebral é uma modalidade especial de personificação subjetiva em que o
indivíduo, geralmente uma criança de 2-8 anos, se comporta como se fosse uma
outra pessoa, já falecida, afirmando ser a própria reencarnação daquela
outra.
V. Como surgem as personalidades secundárias
O psiquiatra
C. G. Jung, em sua tese de doutorado “Sobre a Psicologia e Patologia dos
Fenômenos chamados Ocultos” abordou o caso da Srta. S.W., uma médium que,
entre outras personificações de menor importância, apresentava duas que se
destacavam além da principal. Uma era uma adolescente de nome Ulrich von
Gerbenstein, e a outra seria o suposto avô da médium que ela sequer
conhecera, que só produzia “coisas religioso-pietistas” e “prescrições
morais edificantes”, semelhantes aos sermões que ela ouvira de um piedoso
sacerdote. Jung apercebeu-se de que “a variedade de nomes parecia
inesgotável, mas a diferença entre as respectivas personalidades cedo se
esgotou e ficou patente que todas as personalidades podiam ser classificadas
em dois tipos: o sério-religioso e o alegre-brincalhâo. Na verdade
tratava-se apenas de duas personalidades subconscientemente diversas que
se manifestavam com diferentes nomes que, no entanto, tinham pouca
importância”.
Continuando a
análise do caso, Jung escreve: “Temos aqui personificados os principais
caracteres do passado: de um lado, o educador coercitivo e pietista e, de
outro, o total expansionismo de uma garota de quinze anos que, às vezes,
ultrapassa os limites. Na própria paciente encontramos os dois traços numa
mistura peculiar: às vezes é tímida, esquiva, excessivamente retraída e às
vezes é tão expansiva que chega ao limite do permitido. Ela própria sente
este contraste muitas vezes de modo doloroso. Isto nos dá a chave da
origem das duas personalidades subconscientes. É óbvio que a paciente
procura um meio termo entre esses extremos; esforça-se por reprimi-los e
alcançar um estado mais ideal.”
De
acordo com Jung, tais personalidades surgem como decorrência da dominação do
consciente por complexos autônomos do inconsciente, quando estes se
encontram imbuídos de uma certa quantidade de energia (psíquica) que lhes
permite ultrapassar a barreira que separa o consciente do inconsciente.
Tanto Freud quanto Jung concordam em que o inconsciente não é uma tabula
rasa, mas é formado por idéias e afetos que se aglomeram por afinidade,
formando os chamados complexos. Diz-se que são autônomos pelo fato de
evidenciarem certa independência com relação aos outros complexos e ao ego.
São esses complexos que fornecem material para os sonhos, as fantasias e os
sintomas neuróticos. Muitas vezes, fazem o indivíduo agir de forma contrária
aos comandos conscientes, constituindo os fenômenos conhecidos como “atos
falhos”. (Para Jung, além do Inconsciente Individual, formado pelos
complexos, existe o Inconsciente Coletivo, formado pelos arquétipos).
Baseado em
suas observações, Jung chegou à conclusão que os chamados “espíritos” são
complexos autônomos do inconsciente, que por não terem associações diretas
com o ego se apresentam de forma projetiva.
VI.
As personificações subjetivas à luz da Transcendentologia
Os adeptos
das religiões mediúnicas acreditam que as personificações, no mais das
vezes, são “espíritos”, ou as almas das pessoas falecidas, que dessa maneira
encontram um meio de se comunicarem com os vivos. Quando não, constituem
manifestações do espírito do próprio médium (fenômenos animistas).
Por outro
lado, existem aqueles que adotam uma posição oposta, acreditando serem os
fenômenos de natureza psicológica, isto se não se tratar de franca
simulação, visando ganhos secundários.
Afinal, com
quem está a verdade? Talvez, como em outras áreas do conhecimento, a verdade
esteja no meio, jamais nos extremos.
Uma coisa que
podemos afirmar com certeza é que sabemos que uma grande parte das
personificações não são espíritos ou Seres Transcendentais (ST), na
conceituação de Rosa Borges. Isto por três motivos: primeiro, porque a
análise do individuo, em vários casos, revela os motivos psicológicos que
induzem à dissociação (ou simulação). Segundo, certas informações
surpreendentes prestadas pelo agente psi podem ser explicadas como
fenômenos paranormais, tais como a telepatia e a clarividência. Terceiro,
porque as personalidades secundárias podem ser auto-induzidas ou induzidas
por outra pessoa. Há relatos em que um assistente induz uma personalidade em
um agente psi, e a “entidade” passa então a fazer parte do seu “acervo”. E
quarto, porque já se verificou que alguns médiuns são capazes de
“incorporar” a personalidade de uma pessoa viva, ou personificar um
conflito inconsciente de outrem, esteja este presente ou em local distante.
Há fenômenos,
entretanto, ainda de difícil explicação pelos critérios científicos
vigentes. Qual a origem das informações criptomnésicas? Como explicar o
surgimento de uma personificação subjetiva espontânea de pessoa real
falecida, sendo esta desconhecida do médium e dos presentes? Como se
justifica a “psicografia cruzada”, em que dois agentes psi que não se
conhecem recebem, cada qual, uma metade de uma mensagem que se complementam
no sentido? No caso da psicografia personificativa, é realmente possível um
agente psi imitar a caligrafia e assinatura de um falecido, principalmente
não o tendo conhecido, a ponto de serem legitimadas mediante exame
grafoscópico? E o que dizer da memória extracerebral? Admitir a telepatia e
a clarividência para explicar todos esses casos não seria “forçar demais a
barra”?
De qualquer
forma, a hipótese da sobrevivência para a explicação desses tipos de
fenômenos permanece apenas como uma possibilidade, até mesmo porque esta não
pode ser pesquisada cientificamente, pelo menos dentro dos paradigmas
atuais. A questão, na verdade, deve ficar em aberto, pois com o avanço do
conhecimento, principalmente na área da fisiologia cerebral e dos estudos da
consciência, esses casos podem ter uma explicação muito diversa das
hipóteses transcendentológicas.
VII. Conclusão
Como vimos, o
fenômeno das personificações é de grande complexidade e envolve aspectos
psicológicos, sociológicos, neurofisiológicos, parapsicológicos e
transcendentais.
Uma abordagem
unilateral nos leva, no máximo, a entender um dos aspectos da questão. A
personificação, entretanto, não parece se constituir em um fenômeno único, e
sim, em um conjunto de fenômenos de diferentes naturezas que se manifestam
de forma mais ou menos comum.
Em vista
disso, deduz-se logicamente que seria errôneo pretender-se adotar uma
atitude radical e unificada frente aos fenômenos de personificação. Saibamos
usar o nosso bom-senso, o nosso conhecimento e a nossa intuição. Precisamos
saber ser psicólogos, psiquiatras, parapsicólogos, filósofos e até mesmo
místicos, na circunstância adequada. Agindo desta forma, com certeza,
deixaremos de incorrer em sérios erros de julgamento e atitude, no trato com
aqueles envolvidos no processo.
Bibliografia
1. JUNG, C.
G. Estudos psiquiátricos.(Psychgiatrische Studien) Tradução de Lúcia
Mathilde Endlich Orth. Petrópolis. Vozes. 1994. Vol. 1.
2. BORGES,
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3. QUEVEDO,
Oscar González.
Antes
que os demônios voltem. 3ª Edição. São Paulo. Loyola. 1993
4. KAPLAN,
Harold I. e SADOCK, Benjamim J. Manual de Psiquiatria Clínica.
(Pocket
Handbook of Clinical Psychiatry) Tradução de Miguel Chalub.
Rio de
Janeiro. MEDSI. 1992.
5. BORGES,
Márcia Duarte da Rosa. Personificação: uma forma de expressão do fenômeno
paranormal. Tese apresentada ao IPPP em 1992.