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Experiências Fora do Corpo (*)

Vera Lúcia O 'Reilly Cabral Barrionuevo

Resumo: Este artigo apresenta algumas das principais conclusões a que os estudos de casos espontâneos e de experimentações laboratoriais sobre experiências fora do corpo têm conduzido, nas últimas décadas, os pesquisadores em Parapsicologia. Expõe os diferentes pontos de vista a respeito dessa experiência que, mesmo não podendo ser considerada como um fenômeno psi, é motivo de incontáveis registros de relatos na História da Humanidade; e que representaria, se comprovada cientificamente, a certeza confortadora da continuidade de existência da mente, independentemente do corpo físico. Ao final, descreve um caso disruptivo de experiências fora do corpo estudado e orientado por nossa equipe de Aconselhamento em Parapsicologia.

Abstract: This paper presents some of the main conclusions of spontaneous cases studies and laboratory experiments conducted in the last decades by researchers in parapsychology. Different points of view are explained. For example, although some spontaneous cases can not be considered to be real psi phenomena, such experiences are described in hundred of records and reports all across the history of humanity. If such experiences could be scientifically proved to be psi phenomena, they would represent the assurance of continuity of the existence of mind, independently of the physical body. Finally, it describes one individual case both studied in the context of treament by one of the staff members of our "Counseling in Parapsychology" unit.

O que são experiências fora do corpo?

A simples concepção de uma experiência fora do corpo se resume à impressão que se tem de continuar a pensar, a sentir, a existir fora do corpo físico.

É exatamente esta a sua característica principal, a sensação de se estar fora do corpo. E, de fora, perceber o ambiente. Muitas vezes, avistar o próprio corpo em estado de relaxamento; ou, mesmo, continuando a atuar, de forma aparentemente natural.

Costuma ser descrita como especialmente vivida e realística. É, também, distintamente diversa de um sonho comum.

Sua nomenclatura internacional é OBE, do inglês out-of-body experience. Elas são motivo de interesse e curiosidade, desde tempos remotos; e vêm sendo investigadas, principalmente, em sua forma espontânea, através dos relatos daqueles que as vivenciam.

Grande parte daqueles que vivem essa experiência relata mais de uma ocorrência desse tipo em sua vida; no entanto, há registro sobre pessoas que reportam uma única experiência; e um reduzido número que afirma poder deixar o corpo sempre que tem vontade.

É oportuno lembrar que a sensação de se estar fora do corpo físico não implica, obrigatoriamente, em se estar fora dele realmente, e que não se trata de um fenômeno psi, mas sim, de uma experiência excepcional humana, em sua condição psi-condutiva. Trata-se de um estado alterado de consciência que pode propiciar a ocorrência da fenomenologia psi - seja por acesso ao conteúdo mental de outra pessoa, o que poderia indicar um caso de telepatia; seja por acesso a uma informação do futuro, num exemplo de precognição; por informação de ocorrências simultâneas do meio ambiente, o que poderia indicar uma clarividência; ou por interferência mental nesse mesmo meio-ambiente, o que poderia sugerir a ocorrência de psicocinesia.

Entre as pessoas que passam por esse tipo de experiência, algumas julgam-se perto da morte; outras acham que estão prestes a sofrer uma crise epilética; umas acreditam que têm problemas cardíacos; e outras, ainda, têm medo da loucura.

Por estes motivos, essas pessoas passam a considerá-la como um caso excepcional e estritamente pessoal.

Isto se deve, também, aos sintomas que se apresentam no retorno dos episódios e que costumam, ainda, ser parte de diferentes patologias. São :

       os sons ritmados intracranianos;

       o frio intenso nas extremidades;

       a boca seca e a língua espessa;

       o formigamento ou dores disseminadas pelo corpo ;

       a sensação de expansão interna, conhecida como embalonamento;

•    a respiração, o pulso e os batimentos cardíacos acelerados;

•   e os eventuais episódios de catalepsia (que é a impossibilidade de mover qualquer
parte do corpo).

A respeito da experiência propriamente dita, um expressivo número de relatos coincidentes descrevem :

       A impressão de sair do próprio corpo;

       A sensação de se elevar no ar;

       A percepção da própria consciência em local distante do corpo físico ou num
corpo estranho ao seu;

       A sensação de transpor grandes distâncias;

       A percepção de sons muito mais claros e harmoniosos;

       A visualização de cores muito mais vividas e brilhantes ;

       A alteração na percepção de tempo e espaço;

       A aquisição de informações extra-sensoriais;

       A sensação de voltar ao corpo;

       A repercussão  (que  é a desagradável sensação de choque ou de queda súbita e
vertiginosa, acompanhados ou não de "agulhadas" pelo corpo), atribuída a uma
volta precipitada;  e

       A perda da consciência nos momentos  de  "saída"  ou de    "retorno"    ao
corpo físico.

De incidência menos freqüente, mas, também concernentes a este tipo de experiência, encontramos relatos que descrevem :

       túneis escuros com luzes brilhantes;

       música harmoniosa;

       vento no rosto;

       movimentos muito velozes;

       movimentos através de objetos, paredes, telhados;

       visão do próprio corpo;

       visões retroativas panorâmicas;

       eventuais referências a um cordão brilhante que une os corpos dissociados;

       descrições de encontros com outros seres;

       raros casos de interação com o mundo físico.

Para um sujeito de uma OBE, tornam-se primordiais as vantagens que a prática lhe proporciona:

       a perda do medo da morte;

       a perda do medo do desconhecido;

       a aquisição de novos conhecimentos.

A crença na possibilidade de que a mente consegue se separar do corpo físico assume variadas formas e conotações diversas, em função das diferentes culturas.

O significado das OBEs em diversas culturas

Em 1978, o antropólogo Dean Shiels revelou que cerca de 95 % dos povos registram relatos de algum tipo de experiência fora do corpo.

Enquanto os egípcios acreditavam na existência de vários corpos, os gregos defendiam a idéia de um segundo corpo, apenas.

Platão, como outros investigadores da natureza humana precursores ou posteriores à sua época, afirmava que o ser humano percebe, tão somente, uma espécie de reflexo do que poderia perceber se não estivesse limitado por seu suporte físico.

Aristóteles afirmava que o espírito pode abandonar o corpo e comunicar-se com outros espíritos.

Já os xamãs costumavam preparar-se para seus "vôos", através de uma série de rituais que iam desde a pura exaustão, causada por uma série repetitiva de saltos e gritos, a períodos de jejum intenso; ou do caminhar sobre brasas e lacerações da pele com lâminas afiadas, até à ingestão de substâncias alucinógenas. Assim, nessa espécie de transe auto-induzido, eles conseguiam "enviar" seus espíritos a locais distantes e realizar trabalhos condizentes com seus ofícios de feiticeiros.

No centro da Austrália, a tribo Aranda acredita que apenas os indivíduos do sexo masculino possuem um duplo que é a essência da própria vida.

A cultura dos Bacairi sul-americanos inclui a crença em que o espírito pode desprender-se do corpo, durante o sono. Suas experiências têm uma conotação profética.

Na América do Sul, algumas tribos acreditam que a projeção do duplo pode ser conseqüente a uma queda brusca e repentina.

Na África, os Azande acreditam que uma de suas duas almas pode deixar o corpo adormecido; mas, quando despertam, esquecem a experiência.

Os Mossi atribuem a causa da projeção a uma doença grave ou a um sofrimento intenso.

Na Indonésia os agentes propiciadores das projeções são violentos acessos de cólera, mais freqüentes em crianças.

Algumas religiões orientais incluem a existência de outros corpos, outros mundos, outras dimensões.

O próprio Cristianismo acaba por endossar parte desta idéia com os exemplos bíblicos de bilocação dos santos; e, também, ao afirmar que, com a morte, o ser abandona o corpo físico e assume uma forma mais sutil, em seu corpo espiritual.

As vivências descritas por Carlos Castaneda, em seus livros, fazem alusão a diversos tipos de "viagens", das quais, ao regressar, encontrava muitas vezes, o corpo na mesma posição que deixara.

Em dezembro de 1980, o escritor Rogan Taylor publicou no Sunday Times Magazine, um artigo sobre a história de Papai Noel e suas renas voadoras. Taylor sugeria uma interpretação mais realista da situação real de intoxicação das tribos do Nordeste da Sibéria cuja alimentação e vestuário dependem, primordialmente, das renas da região, que é pródiga em cogumelos alucinógenos de cor vermelha e branca.

As ocorrências durante os períodos de vigília, muito menos freqüentes que durante o sono, podem se comparar às de nossa própria cultura.

Seja qual for o estado de consciência em que se manifestem, as OBEs parecem provocadas por um passado traumático (que incluem doenças, maus tratos, estupros) ou um presente de ansiedade e conflitos; ou até mesmo, a fadiga extrema conseqüente a esforços intencionais ou não, e a técnicas que incluem desde o simples relaxamento à ingestão de drogas, como instrumento de provocação.

Importância e do estudo das OBEs e teorias para tentar explicá-las

A importância da pesquisa das experiências fora do corpo reside, principalmente, na obtenção de um conhecimento mais profundo e detalhado sobre a natureza da experiência, bem como sobre a natureza do ser humano. Contribui, também, de forma muito expressiva para:

1.    intensificar as relações entre mente e corpo;

2.          investigar as hipóteses de sobrevivência da mente;

3.          ampliar o campo de estudos da Psicopatologia, que investiga os processos de
desajuste do indivíduo a seu meio ambiente;

4.          aprofundar o estudo dos estados alterados de consciência;

5.  e,  especialmente,  o  estudo  das  experiências  humanas  e  suas promissoras
possibilidades.

A primeira pesquisa experimental sobre o assunto foi um levantamento realizado, em 1954, pelo sociólogo norte-americano Hornell Hart, da Duke University, na Carolina do Norte.

Esse levantamento abordou estudantes de sociologia, 27% dos quais responderam que já haviam vivenciado uma experiência semelhante à mencionada na pesquisa.

As teorias e concepções concernentes ao assunto, giram em torno da idéia de separação entre corpos e mentes.

Os Modelos Tradicionais de Projeção defendem a idéia de que algo sai do corpo e apresentam como hipóteses, desde as simples projeções da mente ou do espírito, ou mesmo de um corpo energético, até uma complexa projeção de vários corpos.

A comprovação deste modelo transformaria a morte em uma OBE permanente; mas, os cientistas se deparam com grandes dificuldades quanto à sua validação, desde que boa parte dos dados se resumem a meras declarações pessoais dos sujeitos e testemunhas que teriam partilhado da experiência.

Por outro lado, os Modelos Psicológicos e Psiquiátricos contemporâneos defendem a idéia de que nada sai do corpo e apresentam como hipóteses imagens mentais complexas, criações da memória, a dissociação como Mecanismo de Defesa, ou alucinações por fatores fisiológicos ou psicológicos.

Os pesquisadores John Palmer (1975), Susan Blackmore (1980),  e Harvey Irwin (1980) efetuaram levantamentos sobre o assunto, e idealizaram modelos psicológicos para um embasamento teórico da experiência, menos suscetível a críticas do que os tradicionais. Os resultados atuais de Pesquisa apresentam Correlações Positivas entre as   OBEs   e a incidência de :

1.      estados alterados de consciência;

2.      estados dissociativos;

3.      capacidade de absorção;

4.      propensão à fantasia.

Além disso, freqüência em:

1.      recordar os sonhos comuns;

2.      experienciar sonhos lúcidos (nos quais o raciocínio é claro e lógico);

 

3. ter sonhos vividos, intensos, coloridos;

          4.vivenciar experiências místicas (que parecem levar a estados de iluminação
interior);

           5.experiências psíquicas.

Estudo de caso sugestivo de ocorrências de experiências fora do corpo

Em março de 1993, L.M.B. procurou nosso Grupo de Orientação em Parapsicologia, em busca de informação e aconselhamento a respeito de suas experiências de OBE, algumas delas, tão estressantes que chegavam a deixá-la noites inteiras sem dormir.

Foi apresentada aos investigadores e passou a integrar, como sujeito, nosso grupo de pesquisas.

Assinou o Acordo Ético que lhe apresentamos, através do qual, autorizava a publicação dos resultados de nosso estudo; submeteu-se a entrevistas, respondeu a questionários e preencheu todos os formulários que lhe oferecemos.

Indagada, negou a ocorrência de sons intracranianos e sensação de embalonamento, em suas experiências. Não recorda de qualquer experiência de choque repentino com agulhadas no corpo, nem frio intenso nas extremidades; mas confirmou a grande alteração, nas vivências, em sua percepção de tempo e espaço.

Informou ter nascido em Curitiba, em 1954. Antes de seus dois anos de idade, e após um processo litigioso de separação conjugai, foi entregue à família do pai e separada da mãe que, ameaçada e proibida de vê-la, transferiu-se para outra cidade.

Nessa mesma época, houve uma tentativa de rapto da criança, malograda por intervenção do avô paterno.

Criada pela mãe de seu pai e por sucessivas madrastas, a criança convenceu-se de sua devoção cega pela figura paterna, cujo amor e atenção disputava com suas mulheres e os irmãos.

Sua infância foi marcada por crises de rebeldia e agressividade, através das quais, dava vazão a uma imensa sensação de perda e solidão.

Com o tempo, habituou-se a um rancor irracional pela mãe a quem culpava por sua infelicidade.

Entre os 11 e 12 anos de idade, iniciaram os episódios de catalepsia e de sonhos recorrentes de vôos e de quedas bruscas - deprimentes ou persecutórios, com tentativas de assassiná-la, sempre nos mesmos locais escuros e amedrontadores.

Castelos antigos, casas sombrias e abismos eram o cenário de suas aventuras noturnas, das quais acordava exausta e angustiada.

Recorda que os sonhos incluíam, normalmente, chamados do avô paterno.

Esses episódios foram, mais tarde, associados a avisos. Pareciam indícios de futuras ocorrências negativas em sua vida (brigas no colégio, discussões em família, ocorrências desagradáveis, mais perdas). Três anos depois, com a morte do avô, cessaram os sonhos sugestivos de precognição, mas persistiram aqueles recorrentes e persecutórios.

Ficou assustada quando a levaram a um psiquiatra por seu temperamento rebelde. Temendo ser internada como louca, jamais comentou com a família suas experiências noturnas e disruptivas.

Aos 18 anos, começou a enxergar auras em volta das pessoas e formas humanas inconsistentes que costumavam comunicar-se com ela. Dificultava o processo de interação sua incapacidade de aliar visão e audição.

Teve sempre uma imaginação riquíssima, o que lhe permitia substituir as perdas doloridas por ideações compensadoras.

Não precisava dormir ou relaxar para "deixar o corpo". Fazia-o por diversão, muitas vezes, em restaurantes, lanchonetes, salas de aula, enquanto comia, escrevia ou conversava.

L.M.B. nunca pode aceitar a idéia de partilhar sua vida com alguém. Não admitia a hipótese de permitir que a fizessem sofrer. Costumava agredir antes que alguém pudesse pensar em feri-la.

Inimiga de novidades que pudessem surpreendê-la, administrava com ferrenha determinação suas carências afetivas e seu mundo particular cujas paredes começara a erguer na infância.

Quando faleceu a avó que a criara, resolveu morar sozinha e levantar ainda mais as barreiras. Teve, sempre, poucos amigos e nunca admitia que lhe invadissem a privacidade.

Aos 25 anos, conheceu alguns colegas de trabalho com quem conseguiu trocar impressões: eram espiritualistas; alguns prestavam assistência a pessoas carentes e outros integravam correntes espirituais.

Passou a freqüentar terreiros na busca por explicações, mas jamais experienciou uma incorporação mediúnica, limitando-se a ajudar no trabalho dos médiuns incorporados.

Nessa ocasião, passou a dedicar-se tão intensamente a leituras espiritualistas que sua vida começou a girar em tomo dos temas dos livros que lia, quase trocando a realidade por fantasia, até que foi advertida por um conselheiro espiritual para que prestasse mais atenção ao próprio cotidiano.

Decidiu, então, pedir ajuda a profissionais de Aconselhamento em Parapsicologia, por cuja orientação iniciou um tratamento psicoterápico concomitante.

Os eventuais episódios de catalepsia que aterrorizavam sua adolescência começaram a ser encarados como parte da experiência. Aprendeu, aos poucos, alguns truques para abreviá-los: engolir em seco, tentar mexer os dedos da mão ou dos pés e atentar para a própria respiração. Acostumou-se a prestar atenção em todos os tipos de sonhos e registrá-los para futuras discussões.

Sob nossa orientação, começou a ler sobre o assunto. Entendeu, então, que muitas de suas experiências tinham grande semelhança com sonhos lúcidos. Antes de esclarecer suas muitas dúvidas, deixava-se envolver completamente pelas vivências e temia não conseguir escapar, quando se sentia ameaçada ou perseguida. A partir de então, passou a mudar o rumo das cenas quando se tornavam perigosas e apreciar criticamente a maioria delas.

Seu histórico de vida foi confirmado, através de entrevistas com os irmãos, colegas, amigos e vizinhos da família de L.M.B.

Os depoimentos abaixo foram fornecidos à sua pesquisadora e retratam seus momentos de aflição:

1.         Eu acordava no meio da noite com a respiração fraca, batimento cardíaco
acelerado, ausência de sensações físicas. Ficava quieta, imóvel, com a impressão
de estar tendo um ataque. Acendia a luz, tentava me acalmar e vencer o medo de
dormir e voltar às mesmas cenas de antes."

2.         "Quando eu penso na impressão incrível de estar acordada nos sonhos; na vontade
de modificar as cenas, sem saber como fazer; na sensação de cansaço imenso ao
acordar, pelo esforço de 'abreviar' aquelas perseguições; na vibração estranha do
meu corpo, como se o momento de 'voltar' não fosse aquele; fico pensando no
tipo de coisas estranhas que acontecem comigo."

3.         "Voar nos sonhos era sempre tão fácil, no início, e corria tudo tão bem...Chegavam
a ser cíclicos: primeiro a velocidade, o vento no rosto, a liberdade; e a beleza de
tudo em volta, a leveza, a intensidade do que vivia. E de repente, tudo mudava,
vinha o medo, a perseguição, ameaças, sons e cores pesadas. Nesses  momentos
tinha   medo   de   não   conseguir   voltar. Mas, sempre dava um jeito. Então,
conseguia abrir os olhos, via o quarto, a cama e tudo em volta de mim".

4.         "Sair do corpo e não conseguir voltar quando o perigo está em volta é uma
experiência terrível! Sei que preciso acordar e ficar acordada; é como se isso fosse
uma ameaça !"

5.  "Como bagagem pessoal,  carrego  imagens interiores:  da infância,  vem  a
impressão  de  acordar no  escuro,  sem poder,  sem  querer me  mexer; da
adolescência, os sonhos nítidos, de vôo, com situações de fuga - pesadas,
ameaçadoras; da idade adulta, com a informação, vem o raciocínio nos sonhos, a
escolha de reações, a vivência do que sugere ser uma experiência psi; e a
confirmação de uma cena já vivida."

6.  "Ler sobre catalepsia já é apavorante. Imagine acordar no meio de um pesadelo,
sem conseguir se mexer! Ficava louca de medo de dormir por causa do pesadelo
e tinha mais medo ainda de ficar acordada porque não conseguia abrir os olhos!
Pensava que isso não podia estar acontecendo comigo e não conseguia dar um
jeito. Ficava me esforçando pra gemer, piscar, chamar alguém, mexer um dedo,
rolar na cama, qualquer coisa pra quebrar o padrão. E, de repente, de tanto forçar,
eu conseguia sair da cama, de fato. Mas, no momento que olhei a minha cama, vi
a mim mesma deitada, imóvel, em cima dela. O choque me fez voltar, tremendo e
com taquicardia. A dúvida ficou martelando em minha mente: - De onde eu pude
me enxergar?"

Os três anos de terapia e aconselhamento suavizaram bastante as tendências depressivas e a disposição agressiva de L.M.B. Parece ter adquirido um prisma de vida mais positivo.

Neste meio tempo, suas OBEs começaram a regredir, bem como as outras percepções extra-sensoriais.

Por outro lado, perdeu a facilidade que tinha para recordar nítida e detalhadamente os sonhos noturnos.

Lembra, apenas, dos que tem quando dorme à tarde; mas, começou a tentar programar-se para não gravá-los, por se tratarem de pesadelos.

Tendo em vista que as experiências acompanharam o final de sua infância, juventude e vida adulta, rareando e quase desaparecendo à medida que avançava no trabalho concomitante de aconselhamento, informação e orientação psicológica, podemos sugerir que, ao tomar consciência de seus conteúdos, L.M.B., passa a inteirar-se de suas motivações e tenta solucionar os conflitos pessoais, fortalecendo a auto-confíança. Começa a se aceitar e a enfrentar seus problemas de carência afetiva. Busca conhecer e controlar as raízes disruptivas dos fenômenos que vivência. Sente que prescinde da necessidade de criar um mundo de fantasia que a compense do que, de qualquer forma, lhe é irrecuperável.

Conclusão

A Parapsicologia contemporânea tem tentado, nas últimas décadas, induções experimentais para testagem laboratorial de sujeitos que devem cumprir tarefas planejadas pelos pesquisadores, o que pode, na melhor das hipóteses, distinguir, apenas, a experiência relatada de uma simples fraude, de fantasias elaboradas ou de alguns transtornos psicopatológicos.

Durante o Summer Study Program de 1993, o grupo de orientadores psi do Centro de Pesquisas Rhine declarou que este tipo de fenomenologia se manifesta em portadores de distúrbios psíquicos, de ordem emocional, profissional ou financeira._ Sua abordagem se limitava, então, ao âmbito psicológico, e, por seus depoimentos, o fenômeno costuma regredir tão logo haja resolução prática dos conflitos que o motivaram.

Os orientadores psi, formados pelo Núcleo de Aconselhamento em Parapsicologia da Faculdade de Ciências Biopsíquicas do Paraná, concordam parcialmente, com essa visão, embora não se restrinjam a uma abordagem puramente psicológica. Oferecem ao cliente, suporte de natureza parapsicológica, aconselhamento de leituras informativas, e apoio terapêutico, através de vivências de relaxamento e adequação de imagens mentais positivas.

Quanto ao processo de pesquisa, parece oportuno lembrar que tão logo se complete o ciclo do estudo de caso, pode-se levar os dados colhidos para testagem laboratorial das hipóteses levantadas, ampliando, assim, as chances de se chegar a bom termo este tipo de investigação.

Mas, antes de tudo, é preciso deixar patente que o bem estar daquela que vivência a experiência tem prioridade sobre a curiosidade do pesquisador. Deve-se ter em mente que aquilo que o ser humano pensa que vivência é real em sua conseqüência. Respeitada esta premissa, o investigador pode e deve utilizar todos os instrumentos necessários a um processo de Estudo de Casos Espontâneos, desde a Observação Participativa até o planejamento e realização de Entrevistas que devem colher o máximo possível de dados e os testemunhos de todos os elementos integrantes do processo.

 

Referências bibliográficas

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Barrionuevo, V. L. (1996) Alguns Métodos e Técnicas de Pesquisa Qualitativa em Parapsicologia. Curitiba : ed. própria.

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Irwin, H. J. (1989) An Introduction to Parapsychology. Jefferson, New York and London:McFarland.

Wollman, B. B. (1977)     Handbook of Parapsychology. Jefferson, N.C. and London McFarland & Co.

(*) Trabalho apresentado no I Congresso Internacional e Brasileiro, realizado em 1997, no Recife, Pernambuco.