Uma análise crítica de “Born Again! The Indian way”
Vitor Moura Visoni
email: vitormoura@hotmail.com
Resumo: O autor avalia a análise de dois casos de memórias de vidas passadas estudados pelo cético Sanal Edamaruku, presidente da Associação Racionalista Indiana. Os casos foram considerados como sendo ou fruto de fraude ou de auto-ilusão. No entanto, uma minuciosa avaliação revela muitas falhas metodológicas no estudo conduzido por Edamaraku, e revela vários indícios de autenticidade, chegando a uma conclusão diferente da apontada pelo estudo.
Abstract: The author evaluates the analysis of two past lives memories cases studied by the skeptical Sanal Edamaruku, president of the Indian Racionalist Association. The cases were considered as being or fruit of fraud or of auto-illusion. However, a meticulous evaluation reveals many methodological faults in the study driven by Edamaraku, and reveals several indications of authenticity, arriving to an unlike conclusion the aimed by the study.
Palavras-chave: cético – reencarnação – falhas metodológicas
Recentemente, foi noticiado ao vivo numa rede de televisão da Índia a exposição de dois casos que teriam-se revelado verdadeiras fraudes. O relatório dos casos, chamado “Born Again! The Indian way” foi divulgado pelo Boletim Rationalist International, nº 154, de 15 de abril de 2006.
O primeiro caso é descrito por Edamaraku do seguinte modo: ”um homem por volta de seus trinta anos, apresentava seu filho de quatro anos de idade às câmeras de TV. Há alguns meses, o rapaz expressou temor vendo um trator, o pai contou ao repórter. Estranhamente, ele logo começou insistindo que seu nome era Pavithra - o nome de um fazendeiro bem conhecido numa aldeia vizinha, que tinha sido morto por assaltantes há cinco anos. Atiraram nele, quando guiava seu trator. A bala atingiu seu pescoço e ele morreu na hora”.
“Para provar que seu filho era reencarnação de Pavithra, o pai segurou o rapaz em direção das câmeras e o interrogou repetidamente: Qual é seu nome? Quais são os nomes do seu pai, da sua irmã e mãe? E onde a bala lhe atingiu? O rapaz respondeu de acordo com a história de seu pai. Sem qualquer hesitação, ele deu seu nome como Pavitra e os nomes de seus parentes como os de Pavithra. Quando perguntado sobre a bala, ele apontou ao próprio pescoço: aqui! Os aldeãos ficaram impressionados e completamente convencidos que o rapaz era a reencarnação de Pavithra. E assim a família do homem morto, que já tinha levado a criança a sua casa e pensado em adotá-la”.
No segundo caso, “[...] nove membros de uma família de uma aldeia em Punjab foram levados ao estúdio de TV para reunir os pedaços da história de uma menina de três anos de idade, que acreditava-se ser uma reencarnação.[...] a família da menininha era Muçulmana, enquanto que o morto, uma mulher jovem de uma distante aldeia próxima de Délhi, tinha sido Hindu. A mulher tinha sido desertada por seu marido, quando estava grávida. Morreu, de acordo com uma certidão de óbito, de pneumonia. Isto aconteceu cerca de três anos atrás, combinando com a época que sua "reencarnação" nascia. A menininha alegava ter o nome da mulher e orgulhosamente mostrava os lóbulos de suas orelhas para todo o mundo, que supostamente mostravam as marcas de pressão dos pesados brincos pesados que a morta usava”.
“A única representante da família da mulher morta no estúdio de TV foi sua sobrinha de quinze anos, que tinha sido muito íntima dela. Foi por esta sobrinha, que ocorreu de viver na mesma aldeia de Punjabi que a família da criança, que a "reencarnação" foi identificada. A escola da sobrinha era junta do jardim de infância, visitado pela menininha, e para as duas ficaram amigas uma da outra. É fácil de adivinhar como o conhecimento da criança sobre a tia de sua amiga e seus brincos transpiraram. Era também óbvio que a sobrinha, que nunca superou a morte de sua amada tia desafortunada, estava extremamente feliz em vê-la viva como a menininha amigável. No inquérito outro aspecto interessante da história veio à tona. Tem havido forte crítica na aldeia sobre a grande amizade entre a sobrinha Hindu e a menina Muçulmana do jardim de infância. As críticas silenciaram imediatamente, quando a história de reencarnação surgiu”.
“A suspeita que a sobrinha era a executora desta alegação de reencarnação provou-se correta. Revelou-se que ela com êxito tinha espalhado confusão sobre a causa da morte da mulher. De acordo com a crença, somente vítimas de uma morte violenta - por assassinato ou acidente - são chamadas para renascer. Desde que a sobrinha tinha um forte desejo de confirmar a reencarnação, ela fantasiou uma morte diferente para sua tia. Insistiu que a tia tinha morrido de um acidente de bicicleta e que ela própria tinha visto machucados e feridas causadas pelo acidente no corpo morto. Há muitas contradições em seu conto, mas ainda assim a família da menina e obviamente também alguns membros (ausentes) da própria família acreditaram-na. A certidão médica, no entanto, desmascarou-a”.
No meu entender, Sanal Edamaruku cometeu falhas em ambos os casos. No primeiro caso, usa como argumento de fraude que as datas de morte e nascimento não batiam por um período de 2 anos, o que mostra que ele só entende a reencarnação como ocorrendo imediatamente após a morte, caso contrário a alma ficaria sem um corpo. Não fica claro pelo artigo qual o empecilho de uma alma ficar sem um corpo.
Quanto ao erro do menino em responder às perguntas feitas em ordens diferentes, isso também não necessariamente caracteriza que o caso é uma fraude, só mostra que o menino estava ‘viciado’ por responder sempre as mesmas perguntas na mesma ordem! O que teria que ser feito seria encontrar discrepâncias entre as informações fornecidas pelo menino e os fatos conhecidos da vida do fazendeiro. Porém isso não ocorreu.
No segundo caso, como prova de fraude, é dito que a sobrinha inventou o modo de morte da tia para se encaixar na crença da reencarnação (o povo local acredita que só reencarna quem teve morte violenta ou por acidente). Como a tia morreu de pneumonia, em tese não reencarnaria, daí a mentira da sobrinha sobre um acidente de bicicleta, para poder sustentar a sua identificação perante a comunidade local. Há pelo menos três hipóteses para ela ter agido assim:
1ª) Fraude deliberada, podendo ser por vários motivos, inclusive apenas chamar a atenção.
2ª) Auto-ilusão, para superar a perda da tia.
3ª) Viu-se forçada a mentir para não sofrer críticas da comunidade local.
Qual delas é a correta? Não sabemos, pelo menos no relatório não nos são dados detalhes suficientes. Sanal Edamaruku, porém, escolhe prematuramente a 2ª opção.
Outro fato significativo é que nada foi dito acerca da menina que foi identificada como a reencarnação da tia. O que exatamente ela disse sobre a morte dela? Não há registro. Neste caso, seria necessário fazer uma entrevista com a própria listando as declarações dela e perguntando qual teria sido sua última lembrança. Normalmente crianças são difíceis de entrevistar, os gravadores costumam lhes chamar a atenção, mas nesse caso ao menos uma tentativa teria que ser feita.
O artigo ainda afirma que as crianças só lembram de vidas passadas em situações econômicas melhores:”É sempre a criança de uma família pobre que alega [...] ser um membro renascido de uma família comparativamente mais rica, nunca o oposto”. Isso é uma afirmação extremamente equivocada. No livro de Carol Bowman, “Crianças e Suas Vidas Passadas”, se referindo à pesquisa de Stevenson, é dito que “algumas crianças que lembram ter sido de casta inferior à de seus pais podem mostrar toda a grosseria e o instinto de sobrevivência dos desesperadamente pobres, além de hábitos ofensivos para a nova família. Alguns manifestam gratidão por terem ascendido e demonstram grande prazer em comer boa comida e vestirem roupas melhores. Uma menina que nascera brâmane – a casta mais alta das Índia – lembrava-se da sua vida como varredora de ruas da mais baixa casta, os “intocáveis”. Normalmente pacata, a menina aterrorizava a família com seus hábitos repulsivos e com sua insistência em querer comer porco (a família era vegetariana). E, ao contrário dos outros membros da família, limpava de bom grado – quase avidamente – os excrementos das crianças menores”.
Ou seja, um trabalho muito superficial, e mesmo enganador. Ainda assim, a impressão que fica é que os dois casos aparentemente contêm elementos de fraude ou de auto-ilusão, mas não são fraudes comprovadas, como se quer passar, e há inclusive vários indícios de autenticidade, como as idades das crianças, que correspondem aos casos típicos de Stevenson, e a presença de marcas de nascença, pelo menos no 2º caso. No 1º caso, os céticos não deixam claro se tais marcas existem ou não – outra falha do artigo. Aparentemente não. Porém, o garoto demonstra uma fobia (por tratores), fenômeno típico dos casos autênticos! No máximo, o que se poderia dizer de ambos os casos é que não fornecem evidências suficientes para serem caracterizados como sugestivos de reencarnação.
Mesmo que tais casos sejam fraudes – o que, repito, não foi de forma alguma comprovado ao menos com as informações fornecidas no artigo – os céticos poderiam ajudar muito mais as pesquisas no sentido de encontrar novos parâmetros que ajudassem a distinguir os casos verdadeiros dos falsos. Para tal, é preciso que leiam a vasta bibliografia disponível, senão ocorrerá sempre o que acabamos de ver: motivos esdrúxulos ou pouco convincentes para caracterizar um caso como fraude.
Born Again! The Indian way. Rationalist International Bulletin # 154.
Crianças e Suas Vidas Passadas Bowman, Carol. Salamandra (1997).
Past Life Memory Case Studies. James G. Matlock. In S. Krippner (editors.), Advances in Parapsychological Research. Mcfarland.Jefferson, N.C. , 1990. pp. 184-267.